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Mortes evidenciam aumento de tensão em Homs

Marie Colvin, jornalista do jornal 'Sunday Times', e Rami al-Sayeed, cidadão comum que publicava vídeos dos conflitos na internet, morreram devido a bombardeios na cidade síria.

22 de fevereiro de 2012 | 14h 12

"A magnitude da tragédia humana na cidade é imensa. Os moradores vivem aterrorizados. Quase todas as famílias têm um morto ou um ferido entre seus integrantes", escreveu no último domingo a correspondente do Sunday Times Marie Colvin.

"Baba Amr (distrito de Homs) enfrenta atualmente um genocídio", escreveu Rami al-Sayeed em sua última mensagem a seus amigos, publicada ontem pelo site Bambuser, que transmitia os vídeos deste "jornalista cidadão", um internauta comum que produzia relatos e vídeos jornalísticos e os publicava na web.

Ambos estão mortos. Foram vítimas, com poucas horas de diferença, da ofensiva das Forças Armadas sírias sobre o bastião da oposição ao presidente Bashar al-Assad.

Sayeed morreu nos bombardeios dessa terça-feira, os piores vividos pela cidade em semanas, com dezenas de mortos, incluindo crianças.

Em conversa por telefone com a BBC na terça-feira, Marie Colvin descreveu assim o dia em que Sayeed morreu: "Vi um bebê pequeno morrer hoje, absolutamente horrível. Há somente obuses, foguetes e projéteis de tanques caindo sobre áreas civis da cidade, e é implacável."

Colvin morreu nesta quarta-feira, junto com o repórter fotográfico francês Remi Ochlikm, quando um centro de imprensa improvisado pelas forças de oposição foi bombardeado em Baba Amr.

Um ano e uma cidade em comum

Além de sua profissão - e de sua morte -, há poucos elementos em comum entre uma mulher nascida nos Estados Unidos, com três casamentos - mas sem filhos - e dois prêmios de "melhor correspondente estrangeira" ganhos na Grã-Bretanha, e o jovem sírio, pai de uma menina de um ano meio chamada - segundo o Bambuser - Maryam.

Colvin tinha 30 anos de profissão, e Sayeed, 26 de idade.

Ela era especialista em Oriente Médio, mas também acompanhou histórias em Kosovo, Serra Leoa e Sri Lanka, onde perdeu um olho devido a uma granada arremessada pelo Exército. Sobre ele, não sabemos se chegou a deixar a Síria alguma vez.

Fazendo buscas entre os extensos necrológios sobre Colvin publicados agora pelos jornais, e entre as escassas informações que aparecem sobre Sayeed na internet, pode ser encontrado um dado que os aproxima: 1985, o ano em que ele nasceu, e mesmo ano em que ela começou a trabalhar no jornal pelo qual dedicou sua vida, o Sunday Times.

Eles não são os primeiros correspondentes ou cidadãos armados com câmeras de vídeo que morrem em Homs.

Em janeiro de 2012, o jornalista da TV francesa Gilles Jacquier perdeu a vida quando visitava a cidade em uma das viagens organizadas pelo governo. Em dezembro de 2011, foi a vez de outro jornalista cidadão, Basil al-Sayeed, primo de Rami.

Mas as poucas horas de diferença entre uma morte e outra mostram algo mais que uma dessas coincidências às quais os meios de comunicação são tão apegados ao buscar histórias para publicar. Ninguém melhor que eles dois para explicar.

"O bombardeio, somente nesta terça-feira, começou às 6h30. Eu contei até 14 projéteis caindo sobre áreas civis em 30 segundos. Há uma pequena clínica, se é que se pode chamar de clínica, com dezenas de pessoas chegando sem parar. Ninguém aqui consegue entender como a comunidade internacional pode deixar que isso ocorra. Há 28 mil pessoas que não podem sair de Baba Amr, de Homs. Estão sitiadas, estão aqui porque não podem sair", disse Colvin à BBC.

"Em poucas horas, não haverá um lugar chamado Baba Amr", escreveu Sayeed a seus amigos.

Última coincidência

Falando em 2010, durante uma missa em homenagem a jornalista mortos em conflitos, Marie Colvin afirmou que o trabalho de informar sempre deve continuar, apesar dos perigos.

"Nossa missão é mostrar os horrores da guerra com precisão e sem preconceitos", disse ela.

Lyse Doucet, correspondente da BBC que compartilhou mais de uma cobertura jornalística com Colvin, disse nesta quarta-feira que não se surpreendia com a morte de sua colega na Síria.

"Quando escutei sua conversa por telefone com a BBC desde Homs, perguntei a mim mesma, 'Marie está em Homs?', e depois me respondi que obviamente ela teria ido a Homs. Onde mais ela poderia estar? E certamente seria uma das últimas pessoas a deixar o lugar."

O último vídeo na internet que tem Sayeed como protagonista mostra seu corpo sem vida em um hospital improvisado.

No vídeo, aparece um médico, que descreve Rami como um dos melhores jornalistas que Homs já teve, e acrescenta: "Rami morreu porque transmitia imagens reais desde Bab Amr. Rami morreu porque gravava a verdade."

A memória e o respeito das pessoas que os conheceram parece ser, ao fim, a última coincidência entre Colvin e Sayeed. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.