Mubarak nega acusações em início de julgamento histórico
Ex-presidente e seus dois filhos podem ser condenados à morte.

Julgamento
O ex-presidente do Egito Hosni Mubarak se declarou inocente das acusações de corrupção, apropriação indébita e de ordenar a morte de manifestantes, nesta quarta-feira, primeiro dia de um julgamento histórico na capital do Egito, Cairo.
"Sim, estou aqui", disse o ex-presidente, levantando levemente a mão quando o juiz pediu para que ele se identificasse, e se declarasse culpado ou inocente.
"Eu rejeito todas as acusações completamente", disse Mubarak.
O ex-presidente foi levado ao tribunal, na academia de polícia da cidade, em uma maca - para delírio de opositores que se aglomeravam na entrada da corte.
Mubarak, de 83 anos, está sendo julgado juntamente com seus dois filhos, o ex-ministro do Interior Habib al-Adly - já condenado a 12 anos de prisão - e seis outros integrantes de seu regime. Os acusados foram mantidos em uma cela construída especialmente para o julgamento.
Se considerados culpados, eles podem ser punidos com a sentença de morte.
Após quatro horas de audiência, o julgamento foi adiado até o dia 15 de agosto. A defesa havia pedido um prazo maior para estudar cerca de quatro mil páginas de provas.
Mubarak é o primeiro líder árabe a ir a julgamento desde que teve início a onda de protestos populares em diferentes países do Oriente Médio.
O ex-líder do Egito, que permaneceu quase 30 anos no poder, renunciou à Presidência no dia 11 de fevereiro, após 18 dias de protestos populares contra o seu regime.
Reações
O enviado especial da BBC ao Cairo Jon Leyne diz que na rua em frente ao tribunal, um silêncio pairava e uma sensação de espanto imperava entre a multidão que assistia ao julgamento através de um telão.
"Estou muito feliz de vê-lo em uma cela. Sinto que a alma de meu filho começa finalmente a descansar e seu sangue esfriar", disse Saeeda Hassan Abdul Raouf, mãe de um manifestante de 22 anos morto no levante, segundo a agência Associated Press, em frente ao local do tribunal.
Um dos líderes dos protestos, o cineasta Ahmed Rasheed, disse à BBC que o julgamento está sendo acompanhado em TVs por toda a cidade.
"Fiquei maravilhado por ver a cena acontecendo. Estava pessimista, não achava que ele apareceria na corte", disse ele.
Confrontos
Manifestantes contra e a favor de Mubarak se enfrentaram diante do tribunal. Correligionários do ex-presidente e ativistas contrários ao seu regime trocaram insultos e lançaram pedras uns contra os outros.
Eles tiveram de ser contidos por forças de segurança em frente ao tribunal montado dentro da academia de polícia local.
Cerca de três mil homens, entre soldados e policiais, foram convocados para manter a ordem no local do julgamento.
O ex-presidente estava hospitalizado na cidade de Sharm el-Sheikh desde abril e seus advogados afirmam que ele está muito doente - alegação que é vista com ceticismo por adversários de seu antigo governo. Ele chegou ao tribunal de helicóptero.
Um forte esquema de segurança foi montado em toda a cidade. Relatos indicam que as forças de segurança deram tiros de advertência na praça Tahrir, no centro da cidade, para dispersar manifestantes. O local foi palco dos protestos populares que levaram Mubarak a renunciar, em fevereiro deste ano.
A expectativa é de que cerca de 600 pessoas comparecerão ao julgamento.
Perfil: Hosni Mubarak
Aos 82 anos, e com apoio dos EUA, presidente escapou de seis atentados
Após permanecer no poder por quase três décadas, Hosni Mubarak, de 82 anos, renunciou nesta sexta-feira à Presidência do Egito, após 18 dias de protestos nas ruas da capital, Cairo.
A renúncia foi anunciada na TV estatal pelo vice-presidente egípcio, Omar Suleiman. Segundo ele, Mubarak entregou a responsabilidade de conduzir a nação a um alto conselho militar.
Durante praticamente 30 anos, Mubarak manteve-se no poder, tornando-se um aliado confiável dos EUA e de Israel na região, mas governando o Egito com mão de ferro, abrindo pouco espaço para a oposição interna.
Nascido em uma família humilde em 1928 em uma pequena cidade na província de Menoufia, perto do Cairo, Mubarak formou-se na academia militar egípcia em 1949 e entrou na Força Aérea do país em 1950.
Anos depois, acumulando os postos de comandante da Força Aérea e vice-ministro da Defesa, Mubarak teve papel fundamental no planejamento do ataque surpresa contra as forças israelenses na península do Sinai, dando início à guerra de Yom Kippur em 1973.
Sadat
Ele foi recompensado dois anos depois, quando, cedendo à pressão internacional, Sadat nomeou um vice-presidente, escolhendo Mubarak.
Em 1981, Sadat foi assassinado por militantes islâmicos durante uma parada militar no Cairo. Mubarak, sentado ao seu lado, escapou ileso.
Poucos imaginavam que Mubarak, então praticamente desconhecido, conseguiria se manter no cargo por tanto tempo quando assumiu o poder, oito dias após a morte de Sadat.
Apesar da falta de apelo popular e de um perfil internacional, ele criou uma reputação de estadista internacional com base na questão que resultou na morte de Sadat: a busca da paz com Israel.
Estado de emergência
Na prática, desde que assumiu o poder, Hosni Mubarak comandou o Egito como um líder militar. Ele governou o país com base em uma lei de emergência que restringia vários direitos dos cidadãos.
O argumento de seu governo era de que o controle total seria necessário para combater militantes islâmicos, cujos ataques têm como alvo, com frequência, o lucrativo setor de turismo egípcio.
Durante seu governo, Mubarak sobreviveu a pelo menos seis tentativas de assassinato. A mais séria foi o ataque ao carro presidencial logo após sua chegada à capital da Etiópia, Adis-Abeba, em 1995, para participar de uma cúpula de países africanos.
Sob a liderança de Mubarak, o Egito viveu um período de relativa estabilidade doméstica e desenvolvimento econômico, o que levou a maioria da população a aceitar sua permanência do poder.
No entanto, nos últimos anos, o presidente passou a sofrer, pela primeira vez, pressões por mais democracia. As demandas vinham do próprio país e também do seu aliado mais poderoso, os Estados Unidos.
Desde 1981, Mubarak venceu três eleições como candidato único, mas o quarto pleito convocado por ele, em 2005, após forte pressão dos Estados Unidos, teve as regras alteradas para permitir candidaturas rivais.
Críticos dizem que a eleição foi manipulada para favorecer Mubarak e seu partido, o Partido Nacional Democrático (NDP, na sigla em inglês).
Uma nova eleição estava marcada para o próximo mês de setembro. Após o início dos protestos, em janeiro, no entanto, Mubarak anunciou que não concorreria à reeleição.
Vida pessoal
Mubarak mantinha sua vida particular longe do domínio público.
Ele não fuma, não bebe e é conhecido por levar uma vida regrada e saudável, com uma rígida rotina diária que tem início às 6h.
No passado, amigos e colaboradores próximos reclamavam da rotina do presidente, que começava com uma sessão na academia ou um jogo de squash.
Mubarak é casado com Suzanne Mubarak - de ascendência britânica, formada na American University, no Cairo - e tem dois filhos, Gamal e Alaa.
A duração de seu governo, sua idade e a questão de sua sucessão eram temas delicados no Egito.
Os rumores a respeito da saúde do presidente aumentaram quando ele viajou para a Alemanha, em março de 2010, para se submeter a uma cirurgia na vesícula.
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