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Netanyahu dá ao Hamas dianteira na liderança palestina, dizem analistas

Acordo entre Israel e o grupo islâmico é visto como tentativa dos dois lados de enfraquecer Mahmoud Abbas, do Fatah, rival do Hamas.

19 de outubro de 2011 | 12h 54

O acordo de troca de prisioneiros assinado pelo primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, e o Hamas deu proeminência ao grupo islâmico que controla a Faixa de Gaza como liderança nacional dos palestinos, na opinião de analistas israelenses.

Depois da libertação de Shalit, o analista do canal 10 da TV israelense, Chico Menashe, afirmou que o acordo entre Israel e o Hamas significa "pena de morte para Abu Mazen (apelido do presidente palestino Mahmoud Abbas, que é do laico Fatah)" e a "coroação" do Hamas, que é rival do Fatah.

Na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, centenas de milhares de palestinos comemoraram a libertação de 477 prisioneiros, soltos na terça-feira.

Entre as principais palavras de ordem gritadas pela multidão estava o slogan "queremos mais Shalit", exortando militantes palestinos a capturarem mais soldados israelenses para conseguir a libertação de mais prisioneiros palestinos detidos em cadeias de Israel.

Cisjordânia

De acordo com o jornal Haaretz, "o Hamas levantou a cabeça na Cisjordânia (controlada pelo Fatah), e fez isso com a ajuda de Israel e o acordo que lhe lançou uma boia de salvação".

"A organização, cuja infraestrutura civil e militar tinha praticamente sumido da Cisjordânia nos últimos anos, conseguiu marcar um sucesso significativo".

Apenas 10% dos 477 libertados nesta terça são militantes do Fatah, a grande maioria é do Hamas.

Um dos principais líderes do Fatah, Marwan Bargouti, considerado "o Nelson Mandela" palestino, não constava da lista dos libertados.

Bargouti, de 52 anos, líder do Fatah na Cisjordânia, que é visto como o possível sucessor de Mahmoud Abbas na liderança do partido e da Autoridade Palestina, foi preso por Israel em 2002 e condenado a cinco penas de prisão perpétua, por acusação de planejar atentados que mataram civis israelenses.

De acordo com várias pesquisas de opinião realizadas nos territórios palestinos, Bargouti - que recusou-se a colaborar com o julgamento e afirmou ser um líder político e não militar - seria o único líder palestino capaz de obter um amplo apoio de todos os setores da sociedade palestina e vencer o Hamas nas próximas eleições.

Fadwa Bargouti, esposa de Marwan, protestou contra o fato de seu marido não constar da lista dos libertados.

"Eles (Hamas) querem afastá-lo da arena política", disse.

ONU

A lista dos prisioneiros que foram soltos inclui palestinos da Cisjordânia, da Faixa de Gaza, de Jerusalém Oriental e até de dentro de Israel - seis prisioneiros árabes de cidadania israelense também foram libertados.

A inclusão de prisioneiros de todos os setores confere ao Hamas uma oportunidade de se apresentar como líder de todos os palestinos, assim desafiando a OLP (Organização para a Libertação da Palestina) , que firmou acordos de paz com Israel, e que é reconhecida internacionalmente como representante dos palestinos.

O acordo de troca de prisioneiros firmado entre Israel e o Hamas ocorre menos de um mês depois que o presidente palestino, Mahmoud Abbas, apresentou um pedido à ONU para que reconheça o Estado Palestino nas fronteiras anteriores à da guerra de 1967.

Para líderes do Fatah, o momento escolhido por Israel e o Hamas para firmar o acordo tem relação com a ampla legitimidade internacional que Abbas obteve apresentando o pedido na ONU.

Mais de 80% dos palestinos apoiaram a atitude de Abbas, que foi criticada tanto pelo Hamas como por Israel.

O Hamas criticou a iniciativa junto à ONU afirmando que um Estado Palestino nas fronteiras de 1967 estaria "abandonando os palestinos de 1948 (cidadãos árabes de Israel)".

Já Israel declarou considerar a iniciativa de Abbas "unilateral" BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.