'A crise não é minha, é do Senado', diz Sarney em sua defesa
Presidente do Senado nega a existência de atos secretos na Casa que distribuiu benesses e defende apuração
"A crise não é minha, é do Senado", afirmou o presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), ao se defender no plenário nesta terça-feira, 16, sobre as denúncias dos atos secretos da Casa revelados em reportagens de O Estado de S. Paulo. "Só conheço um ato secreto, durante Médici (general Emílio Garrastazu Médici), decreto secreto. Aqui ninguém sabe o que é ato secreto. Eu não sei o que é ato secreto, aqui (no Senado), não há atos secretos. O que temos é que verificar as irregularidades da entrada (das nomeações) em rede e da não entrada em rede. Mas tudo isso no passado, nós não temos nada que ver com isso, não tem a ver com nosso período", argumentou em sua defesa.

Ele afirmou que, "hoje, todos os atos estão na rede" e que "não existem atos nenhum (sic) que não estão na rede." Sarney, aparentando nervosismo, com o senho franzido, hesitando na escolha das palavras e incorrendo em erros de concordância, negou enfaticamente que tenha havido privilégios na nomeação, por atos secretos, de um sobrinho seu e de uma neta de sua mulher, Marly, para cargos no Senado.
"Ninguém pode tomar posse sem ter sua nomeação publicada. Isso não existe. Se alguém fez, vamos descobrir, vamos punir", afirmou, dizendo que essa é a tarefa criada pelo senador Heráclito Fortes (DEM-GO). "Seria colocar na costa de todos nós a responsabilidade pelo que pode ter acontecido, não sei se aconteceu, é injusto, mas não vou dizer que vou mais longe..."
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Sarney afirmou que nesses quatro meses em que assumiu a presidência do Senado se concentrou exclusivamente em corrigir erros e tomar providências para resgatar o conceito da Casa. "Não seria agora, na minha idade, que iria praticar qualquer ato menor que nunca pratiquei na minha vida. Eu aqui no Senado assisti a muitos escândalos, momentos de crise, mas em nenhum momento meu nome esteve envolvido. Eu nunca tive meu nome associado a coisas que são faladas no Congresso, ao longo do tempo", afirmou.
O senador disse ainda que é preciso apurar o caso e voltou a alegar total transparência no Senado com a publicação das decisões na internet, no site da instituição. "Se alguém fez, vamos punir e descobrir. Para isso, nossa comissão está sendo feita. Querer colocar nas costas de todos nós e principalmente eu que estou dirigindo a Mesa é realmente uma coisa injusta para não dizer que foi mais longe."

Reprodução
Sarney é acusado de autorizar atos secretos na Mesa Diretora do Senado para uma série de contratações. Sarney, segundo nova reportagem publicada nesta terça no Estado, pretende "sacrificar" o atual diretor-geral da Casa, Alexandre Gazineo, para garantir sua sobrevivência no cargo. Ele admitiu que indicou ao senador petista Delcídio Amaral (MS) a sobrinha Vera Portela Macieira Borges para um cargo na Casa, mas negou pedido em favor do neto João Fernando Michels Gonçalves Sarney.
"Ora, senadores, quais fatos de que sou acusado? Depois de 50 anos de vida pública? Porque eu indiquei a Delcídio que uma sobrinha de minha mulher fosse requisitada para seu gabinete. Meu neto, eu não pedi e não sabia. Então, essa é a minha conduta na vida pública. Por isso que eu depois de ter prestado tantos serviços neste País, eu que não concordei ao AI-5. Fui o único, no dia 5 de abril, quando todo mundo vivia medo extraordinário e era para viver, está nos anais da Casa, e aqui eu disse 'aqui não se cassa mandato de ninguém', protestando. Eu tive a coragem de afirmar desta maneira. Eu que fui relator da matéria que acabou com o AI-5. Fui eu. Vê se agora a pessoa sendo julgada por causa de neto meu e neta minha, falta de respeito pelos homens públicos. Acho que constitui extrema injustiça", disse.
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