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Aos 139 anos, 'Estado' preserva defesa da liberdade

Fundado em 4 de janeiro de 1875 por um grupo de republicanos, jornal desconsidera 5 anos sob censura imposta por Getúlio Vargas

03 de janeiro de 2014 | 23h 30
José Maria Mayrink - O Estado de S. Paulo

São 139 anos de fundação e 134 anos de vida independente. O jornal O Estado de S. Paulo, lançado em 4 de janeiro de 1875 com o nome de A Província de São Paulo, não conta em sua história os cinco anos que passou sob ocupação da ditadura de Getúlio Vargas, de março de 1940 a dezembro de 1945. Censurado em seis períodos do século passado, o mais longo durante o regime militar, de dezembro de 1968 a janeiro de 1975, o jornal está sob censura há 1.558 dias, por decisão judicial. Está proibido, desde 30 de julho de 2009, de publicar informações sobre a Operação Boi Barrica, de investigação da Polícia Federal a respeito de atividades do empresário Fernando Sarney, filho do senador José Sarney (PMDB-AP), no Maranhão.

Jornal registrou momentos históricos do País - Acervo/Estadão
Acervo/Estadão
Jornal registrou momentos históricos do País

Fundado por um grupo de republicanos sem nenhum compromisso partidário, o jornal mudou de nome em 1.º de janeiro de 1890, um mês e meio após a proclamação da República, pela qual havia lutado. "Viva a República", comemorou a primeira página na manhã de 16 de novembro de 1889, numa ousada apresentação gráfica inimaginável pelos padrões da época. A manchete, um brado de vitória, ocupava todo o espaço, sem mais texto nem ilustração, a não ser o desenho do gorro frígio, alegoria da liberdade conquistada.

Em 1888, o ainda A Província de São Paulo celebrou a abolição da escravatura, primeira grande causa política abraçada pelo jornal, que enfrentou a oligarquia dos fazendeiros paulistas contrários à libertação dos escravos. Nesse ano, o nome do jornalista Julio Mesquita já aparecia no cabeçalho da primeira página, como gerente da sociedade. Foi ele, o patriarca da família Mesquita, o responsável pelas sucessivas inovações e pela linha editorial que marcaram, desde as primeiras décadas, a história do Estado. Buscou entre intelectuais e escritores os seus principais colaboradores. De sua equipe participaram Aluísio de Azevedo, Júlia Lopes de Almeida, Raul Pompeia, Raimundo Correia, Alberto de Oliveira, Monteiro Lobato e Guilherme de Almeida.

Foi Julio Mesquita quem descobriu o talento de Euclides da Cunha, o jovem iniciante enviado ao sertão da Bahia para cobrir a Campanha de Canudos, quando os seguidores de Antônio Conselheiro enfrentaram as tropas do governo da República. "Um jagunço degolado não vale uma xícara de sangue", escreveu o repórter, ao relatar a violência da luta. Euclides da Cunha desenvolveu, mais tarde, suas reportagens nas páginas de Os Sertões, uma das mais importantes obras da literatura brasileira.

O jornal surpreendeu a imprensa paulista logo após o lançamento, quando incorporou a venda avulsa ao sistema de assinatura que entregava os exemplares em casa. Foi quando o francês Bernard Gregoire saiu às ruas do centro da cidade, montado em seu cavalo e acompanhado de um cachorrinho, com uma buzina nas mãos e um maço de jornais debaixo do braço. A Província, que tinha então quatro páginas e uma edição de 2.025 cópias, assustou a concorrência com a novidade. O jornal foi o primeiro a contratar uma agência de notícias - a Havas, atual France Presse - para agilizar a transmissão de notícias internacionais, que chegavam de navio.

O Estado sofreu a primeira censura sistemática durante a Primeira Guerra. O governo proibiu a publicação de notícias militares que pudessem prejudicar os aliados que lutavam contra a Alemanha, mas não foi esse o noticiário mais atingido. Os censores mostraram-se mais preocupados em cortar as críticas e informações nacionais consideradas prejudiciais à administração. Durante o conflito, Julio Mesquita comentou em artigos diários, publicados em 2002 no livro A Guerra, em quatro volumes, o desenrolar dos combates na Europa. Descrevia a luta e analisava a política dos países envolvidos.

A censura voltou durante a Revolução de 1924, quando os paulistas se revoltaram contra o regime autoritário do presidente Artur Bernardes. O Estado sofreu arbitrariedades dos dois lados - primeiro dos revolucionários e depois das forças federais, quando o governo dominou a situação. Julio Mesquita foi preso e enviado para um quartel no Rio de Janeiro. Na época, seus filhos já trabalhavam com ele - Julio de Mesquita Filho na redação e Francisco Mesquita na administração da empresa. Os dois assumiram O Estado de S. Paulo quando o pai morreu, em 1927.

Os Mesquita tiveram notável participação política nas décadas seguintes, quando fizeram do jornal uma trincheira na luta pela democracia. Enfrentaram o governo e aguentaram as consequências. Julio de Mesquita Filho e Francisco Mesquita, que apoiaram Getúlio Vargas na Revolução de 1930, voltaram-se contra ele dois anos depois e engajaram-se na Revolução Constitucionalista de 1932, quando os paulistas cobraram a Constituição prometida pelo presidente. Os dois irmãos não só puseram as páginas do Estado a serviço da causa, como também pegaram o fuzil para combater no Vale do Paraíba. Com a derrota do movimento, os dois irmãos foram presos e exilados em Portugal, com a família.

Em 1934, os revolucionários foram anistiados e retornaram ao Brasil. A convite do cunhado Armando de Salles Oliveira, que fora nomeado interventor e depois eleito governador, Julio de Mesquita Filho coordenou a fundação da Universidade de São Paulo (USP). A trégua com o governo federal durou pouco, pois o golpe do Estado Novo, em 1937, instalou nova ditadura e com ela voltou a censura à imprensa. Julio de Mesquita Filho foi preso e solto 17 vezes, até ser de novo enviado para o exílio, em 1939, dessa vez na França. Antes de estourar a Segunda Guerra, ele se mudou para a Argentina, enquanto Armando de Salles Oliveira, também exilado, se transferia para os Estados Unidos.

O jornal tentou resistir à censura até março de 1940, quando soldados da Força Pública, atual Polícia Militar, do interventor Ademar de Barros ocuparam redação e oficinas gráficas, por ordem de Getúlio Vargas. Prepostos do governo dirigiram o Estado até dezembro de 1945, pouco mais de um mês após a queda da ditadura. Os Mesquita recuperaram a empresa, que se encontrava em boa situação financeira, e fizeram novos investimentos. Construíram uma sede moderna na Rua Major Quedinho e fundaram, em 1966, o Jornal da Tarde, que circulou até 2012.

Julio de Mesquita Filho morreu em julho de 1969, sete meses após a edição do Ato Institucional n.º 5 (AI-5), que mais uma vez impôs censura à imprensa. Os filhos assumiram a direção - Julio de Mesquita Neto no Estado, Ruy Mesquita no Jornal da Tarde e Luis Carlos Mesquita na Rádio Eldorado. Os dois jornais dos Mesquita resistiram. Como se recusaram a fazer autocensura, o governo militar enviou agentes para a redação em 13 de dezembro de 1968, fez censura por telefone nos meses seguintes e tornou a mandar censores para as oficinas gráficas em 1973, no governo Medici. A censura só acabou em 3 de janeiro de 1975, com o general Ernesto Geisel, na véspera da comemoração do centenário do Estado.

Foi um período difícil e heroico. Como a censura não permitia deixar espaços em branco, textos e ilustrações cortados eram substituídos por poemas (Estado) e receitas de bolos e doces (Jornal da Tarde). Nas primeiras semanas, os leitores não entendiam o que estava ocorrendo e elogiaram o apoio dos jornais à cultura e à culinária. Com o aumento da repressão, vários jornalistas da Rua Major Quedinho foram presos e torturados. Tiveram o apoio de Julio Neto e de Ruy Mesquita, que mais de uma vez foram também intimados a depor sobre reportagens que burlaram a censura.

Quando Julio Neto morreu, em 1996, Ruy Mesquita, que já dirigia o Jornal da Tarde, assumiu a direção do Estado. Era diretor de Opinião em maio do ano passado, quando morreu, aos 88 anos de idade e mais de 60 de jornalismo.

A comemoração dos 139 anos de fundação do Estado coincide com o aniversário da Radio Eldorado (1958) e da Agência Estado (1970), do Grupo Estado.






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