Bornhausen sai da cena política e diz que oposição está sem líder
Para o ex-presidente nacional do DEM, nem Aécio e nem Serra preencheram vácuo deixado por Fernando Henrique Cardoso
O ex-presidente nacional do DEM, Jorge Bornhausen, deixa o partido e a atividade política convencido de que a oposição está sem rumo e sem líder. "Houve um vácuo na oposição e a liderança do presidente Fernando Henrique Cardoso ainda não foi preenchida", diz Bornhausen, para quem nem o tucano José Serra, nem o senador Aécio Neves (PSDB-MG) conseguiram se credenciar como líderes da oposição.

A seu ver, o maior equívoco dos três partidos de oposição - DEM, PSDB e PPS - foi o de se meterem em disputas internas. "Com isto, estão perdendo, a oportunidade de formar uma única agremiação e de ter as condições necessárias para atuar como oposição responsável e fiscalizadora", analisa. Em entrevista ao Estado, ele admite que a fusão não teria impedido a criação do novo PSD, mas afirma que certamente a nova legenda não teria crescido como cresceu. A seguir, a íntegra da entrevista.
Depois de fazer a dissidência, criar o PFL e fundar o Democratas, não é frustrante ver o DEM esvaziado e com dificuldade de sobreviver?
Nós criamos uma dissidência em um ato de coragem, porque todos estávamos sujeitos à perda de mandato, e conseguimos formar a Aliança Democrática junto com o PMDB, para eleger Tancredo Neves. Isto possibilitou uma bela página na história brasileira, que foi a transição para a democracia plena. Tivemos outras vitórias, mas eu destacaria a eleição de 1994, como passo fundamental para que Brasil pudesse ter uma moeda estável e derrubar a inflação, com o apoio do PFL. Em 2006, quando decidi não mais disputar eleições para abrir espaço a uma nova geração no Estado, também dei um passo para a renovação do partido e para sua denominação definitiva, que foi o DEM. A partir daí, minha participação passou a ser mais de conselheiro, que qualquer outra coisa. Agora, dou por concluída também a minha vida partidária.
O senhor acha que cometeu algum erro na sua sucessão?
Erro todos nós cometemos, mas não é hora de fazer balanços nem de culpar quem quer que seja. Eu desejo que o Democratas encontre um caminho e possa continuar sua existência como um partido político respeitável. Não é hora de voltar para trás e provocar discussão, mas de desejar sucesso a um homem de grande valor na vida pública, que é o presidente do DEM, senador José Agripino (RN), e ao presidente do Conselho Político do partido, Marco Maciel, que considero o político mais completo e de qualidade da minha geração.
O que ocorreu com a oposição que, depois da terceira derrota, passa à opinião pública a imagem de estar se dissolvendo, quando o PT só se fortaleceu com as três derrotas do Lula?
Hoje, na verdade, o grande líder da oposição no Brasil ainda é o presidente Fernando Henrique Cardoso e ele já não tem mais a atuação partidária e eleitoral que possa dar fôlego á oposição. Ele foi injustiçado até por parcelas da própria oposição que não sustentaram os grandes feitos do seu governo.
O senhor está dizendo que a oposição está órfã de um grande líder nacional que a conduza?
Houve um vácuo na oposição e a liderança do presidente Fernando Henrique ainda não foi preenchida.
Mesmo sendo mais identificado com o grupo de José Serra, o senhor fez o gesto de aproximação do senador Aécio Neves. Depois da conversa com ele, como o senhor vê a liderança de Aécio no cenário futuro?
Eu respeito os dois como políticos de sucesso, um como governador de Minas e outro de São Paulo. Na eleição, eu sempre achei que a vez era do Serra em função das pesquisas eleitorais. Posso até ter me equivocado porque não ganhamos, emas eu respeito a posição dos que achavam que Aécio era o melhor candidato. Cabe ao PSDB, afinal, dizer quem é o líder e quem vai ser o candidato.
Hoje setores majoritários no DEM e no PSDB dizem que o favoritismo de Serra se inverteu e Aécio está em vantagem. O senhor pensa assim?
Eu acho que será o líder aquele que souber melhor se conduzir daqui até 2014.
Mas a avaliação geral é de que existe uma fila e Aécio está na frente.
Não é uma questão de fila. Ser o Aécio tivesse sido candidato a vice-presidente da República, esta fila seria automática. Mas acho que até o Serra teria ganho a eleição.
Como grande crítico do presidente Lula, passados quatro meses de governo o senhor acha possível dizer que a presidente Dilma é diferente?
Acho que ela tem agido de forma racional, técnica e procurando gerenciar o governo, ao contrário de seu antecessor que era espetaculoso e não tinha compromisso com a verdade nem com a postura do cargo. Neste período de carência de início de governo ela está tendo um comportamento adequado, em uma luta muito forte contra a inflação, com a vantagem de ter a seu lado um político muito hábil e experiente, que pode ajudá-la muito, que é o ministro Palocci.
O presidente Lula fez campanha em Santa Catarina pregando a extinção do DEM, que venceu as eleições. Porque o partido vencedor está acabando no Estado?
Assim como eu, o nosso grupo, liderado pelo governador Raimundo Colombo, entendia que o correto seria a fusão das oposições, transformando os três partidos de oposição em um grande partido, com um belo tempo de televisão, um bom fundo partidário. Desta forma, poderia praticar a receita dada à oposição pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, no artigo que foi mal compreendido. Mas havia resistência em todas as legendas e eu não tinha como não liberar os companheiros para decidir fazer o que era preciso. Eles decidiram ir para o PSD e eu decidi encerrar minha atividade na vida partidária.
Tem espaço para três partidos de oposição na vida política nacional hoje?
Nesse momento, os partidos de oposição estão divididos externa e internamente e, com isto, não estão cumprindo sua razão de ser ditada pelas urnas: quem ganha governa, quem perde faz oposição. Metidos em disputas internas, os partidos estão perdendo a oportunidade de formar uma única agremiação e com isto ter as condições necessárias para atuar como oposição responsável e fiscalizadora. FHC fez a radiografia perfeita da oposição e deu a receita que muitos não entenderam.
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