Capitão comanda marcha de 10 dias que acaba em massacre final e vitória
Na ofensiva liderada pelo capitão Potyguara, soldados queimaram 5 mil casas e mataram 600 cablocos
O plano do general Setembrino de Carvalho de atacar Santa Maria por meio de quatro colunas em direções diferentes não se cumpriu. O reduto que se espalhava por uma serra seria liquidado por apenas um destacamento. Se os "pelados" (rebeldes) tinham sua tropa de elite, os "pares de França", os "peludos" (militares) partiriam para o massacre da "cidade santa" com um grupo especial.
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O destacamento seria comandando pelo capitão cearense Tertuliano de Albuquerque Potyguara, 42 anos, que havia se destacado nas primeiras ações da campanha de Setembrino no Contestado. Potyguara conquistou a confiança do general em poucas semanas. O capitão estaria integrado oficialmente à Coluna Norte, comandada pelo coronel Manoel Onofre Muniz Ribeiro, na prática, porém, Potyguara teria poder próprio na chefia de um grupo de cerca de 500 militares e 110 vaqueanos, guias, mateiros e pistoleiros das fazendas.
Há duas versões para o que se sucedeu naqueles dias no Contestado. Setembrino decidiu dar poderes especiais a Potyguara e a missão de atacar sozinho o reduto de Santa Maria, após o fracasso de uma missão de ataque em fevereiro, pelos homens do coronel Francisco d´Estillac Leal, comandante da Coluna Sul. Dessa vez, a coluna de Estillac apenas daria apoio a Potyguara. Outra versão é que Potyguara, deveria ter se juntado à Coluna Leste, do coronel Julio Cesar Gomes, na localidade de Chico Melo, quilômetros antes de Santa Maria, mas decidiu tomar outro rumo e partir sozinho para a "cidade santa", surpreendendo a Coluna Sul, de Estillac Leal, que deveria tomar a frente do ataque a Santa Maria. Numa versão ou na outra, o capitão optou em fazer uma marcha forçada e sem descanso.
Potyguara pôs sua tropa no caminho de Santa Maria, enquanto os demais 6.500 homens do Exército permaneciam estáticos em seus acampamentos em Canoinhas, União da Vitória e nas matas ao redor da "cidade santa".
Na manhã da Quinta-Feira Santa, 1º de abril, Potyguara e seus homens foram surpreendidos por rebeldes na área do rio Caçador Grande. Mais de mil caboclos estavam nos morros e despenhadeiros. Os rebeldes atiram. Os militares reagem. Na travessia do rio, Potyguara perde seu cavalo, acertado por uma bala. Ele escreveria mais tarde ao general Setembrino que o animal recebeu um tiro na testa na "terrível passagem pelo rio Caçador", durante o "horroroso fogo que nos fazia o traiçoeiro inimigo, composto de mais de mil homens numa extensão de mais de mil metros da margem opposta".
Após a travessia do rio, os militares mataram uma centena de rebeldes. Caía morta a virgem Maria Rosa. A virgem era a líder da área do Rio Caçador, poder que lhe restara desde que foi substituída por Francisco Alonso no comando-geral do movimento. Potyguara perdeu seis homens. À noite, parou para dormir nos escombros do reduto de Maria Rosa, em meio a corpos e cinzas de casebres e ranchos.
Na Sexta-Feira da Paixão, Potyguara entrou no reduto do coronel Aleixo, numa prévia da tomada de Santa Maria. Os militares bombardearam as barracas. Rebeldes tentarm reagir.
Ao relatar ao coronel Manoel Onofre Muniz Ribeiro, em 20 de abril de 1915, a tomada do reduto do Aleixo, Potyguara escreveu que os caboclos eram degoladores. "Foi tal a impetuosidade do ataque dos bandidos e tão grande era o número d´elles que chegavam a intrevellar com a nossa força em altos gritos de Degola! Degola! Matando nos primeiros encontros picados a facão 4 homens da minha vanguarda, ficando os cadáveres em estado lastimável", escreveu. "No entanto, a revanche não se fez esperar, os nossos bravos sedentos de vingança atiravan-se contra os grupos de facínoras de facão e bayoneta armada, em poucos minutos, numa lucta titânica e heróica, via-se grupos de cadáveres de jagunços completamente desfeitos, pela acção terrível da bayoneta e dos afiados facões dos nossos bravos."
Nos relatórios do Exército sobre o Contestado, há poucas referências a ataques militares com canhões e metralhadoras. Os oficiais preferiram descrever "memoráveis" e "titânicas" batalhas a facões e baionetas - pequeno sabre - contra os jagunços "facínoras". Não há referências à prática de degola por parte dos militares.
O capitão deu um tom épico à sua ação. "Passados os primeiros instantes desta loucura humana que só a penna brilhante de um Euclydes da Cunha poderia discrevel-a em linguagem precisa e impressionante, ordenei o socorro aos feridos e, apóz o combate, o enterro dos nossos bravos mortos e o desarmamento dos 85 bandidos que jaziam no solo completamente desfigurado; depois de um descanso de 30 minutos enquanto eu mandava avançar o comboio e os feridos da retaguarda, preparava de novo a minha vanguarda para entrar de assalto no grande reducto denominado do "Aleixo"."
Aleixo conseguiu escapar. A tropa de Potyguara dormiu nos escombros do reduto rebelde. Na manhã do Sábado de Aleluia, 3 de abril, o capitão retomou a marcha em direção a Santa Maria. As baixas no grupo do capitão chegavam a cem, incluindo mortos e feridos.
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