Wilson Pedrosa/AE
Wilson Pedrosa/AE

Cariri, no Ceará, de novo sonha com o Sul

Trabalhadores voltam a entrar em ônibus clandestinos para se aventurar nos canaviais dos Estados de São Paulo e Minas Gerais

Leonencio Nossa - O Estado de S.Paulo

12 Maio 2012 | 19h19

Uma imagem símbolo do velho Nordeste ressurgiu no sertão do Cariri, no Ceará. Trabalhadores desempregados do consórcio liderado pela construtora Delta voltaram a entrar em ônibus clandestinos para se aventurar nos canaviais dos Estados de São Paulo e Minas Gerais.

Na noite da última quarta-feira, Odair de Jesus Belizário, 44 anos, desempregado do canteiro da transposição do Rio São Francisco, andava pela cidade em busca de R$ 250. É o valor de uma passagem para o Sul, incluindo a "boia". "Não dá mais para abrir a panela para baixo e ver que não ferve", afirma.

Os micro-ônibus passam à noite na praça da cidade para recolher até 30 trabalhadores da cana e fazem viagens que chegam a durar três dias.

Odair e a mulher, Francisca, têm cinco filhos. "É pelas crianças que eu vou", afirma o trabalhador. Ele ainda tentou, sem sucesso, emprego nas pequenas obras financiadas com recursos federais na cidade.

A "crise do britador", como o escândalo da Delta é chamado em Mauriti, chegou numa época de estiagem. As chuvas no começo do "inverno", em janeiro, foram poucas. O verde das margens das estradas do Cariri engana quem trafega pelas rodovias da região. A terra está dura, os açudes não passam de um palmo de água.

Há tempos a situação nordestina não condizia com as músicas de seca de Luiz Gonzaga, que neste ano completa seu centenário.

Minas. Na Palestina, zona rural de Mauriti, o casal de agricultores Leonor e Francisco Barbosa de Lima viu José Gomes, 21 anos, o mais velho dos quatro filhos, embarcar para Minas. A roça de milho plantada pela família na propriedade de um fazendeiro está perdida. "Aqui ele não tinha condições de pagar as continhas dele", conta o pai.

"Essa Delta nunca teve compromisso com os cearenses. A pessoa trabalha um mês e, antes de ganhar experiência, é demitida. Depois, a firma contrata de novo. É sempre um bota e tira", reclama. "Mas em abril não botou mais." Diferentemente das secas do passado, a família Lima, agora, dispõe do "alívio" de R$ 102 por mês do Bolsa Família. "Se não fosse esse dinheiro, a situação estava mais difícil", diz Leonor. Ela chora de forma inesperada ao falar do filho que está em Minas. Romário, 18 anos, outro filho, quer fazer o caminho do irmão. "O menino está doido para se empregar", conta a mãe.

Num sítio vizinho, mora outro desempregado da Delta. Cícero Elivelton dos Santos, 20 anos, diz que luta para não seguir o mesmo caminho do amigo José Gomes. "Se voltar a chover, poderei continuar ajudando o pai na plantação", conta. Cícero recebia R$ 700 na carteira como servente no trabalho de concretagem do canal. Ele fazia planos de ajudar o pai, Geraldo Soares dos Santos, a comprar um pedaço de terra e sair da propriedade onde vivem como arrendatários.

Lembra que não conseguiu nem mesmo juntar dinheiro para comprar uma motocicleta, sonho de dez em cada dez jovens da região. Em sítios das redondezas, há muitas motos paradas. Sem emprego, não há dinheiro para gasolina, nem mesmo para pagar as intermináveis prestações do financiamento.

Geraldo diz que, nesta safra, a família só conseguiu colher três sacos de feijão. No ano passado, foram colhidos dez sacos. É com desconforto que o agricultor vê passar carros-pipa para molhar as estradas de terra por onde passavam os caminhões do consórcio. Foi uma exigência dos próprios moradores do povoado, que estavam cansados de "comer" poeira no tempo de movimento de carros. Agora, a falta de água é nas plantações.

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