Casal morto no Pará tinha denunciado madeireiros ao MP

Documento ao qual ‘Estado’ teve acesso cita 3 empresas e indica que reserva de Nova Ipixuna foi quase toda destruída

Carlos Mendes, especial para O Estado de S. Paulo

26 Maio 2011 | 23h02

BELÉM - Vinte dias antes de ser morto a tiros, o casal de líderes extrativistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo enviou um documento ao Ministério Público Federal de Marabá denunciando o envolvimento de três madeireiras da região de Nova Ipixuna, no Pará, em crimes ambientais. O denúncia, a que o Estado teve acesso, cita as empresas Tedesco Madeiras, Madeireira Bom Futuro e Madeireira Eunápolis e mostra que a reserva de mata densa já foi quase toda destruída para retirada de madeira.

 

No mesmo dia em que a denúncia foi protocolada no Ministério Público, 4 de maio, o procurador Tiago Modesto Rabelo pediu informações ao Ibama sobre os danos provocados por estas madeireiras na área de preservação do assentamento Agroextrativista Praia Alta Piranheira, onde os líderes atuavam. Além do casal, nove assentados assinaram o documento.

 

Uma das denúncias é a produção de carvão na região usada para abastecer empresas do polo siderúrgico de Marabá. De acordo com os assentados, na área existem 500 fornos de carvão construídos nos lotes das famílias. Para derrubar a floresta, as empresas pagam R$ 30 pelo metro cúbico de madeira cujo valor no mercado internacional atinge R$ 1,2 mil. "Os assentados mais frágeis e entusiasmados com a possibilidade de ganhar dinheiro se submetem a essa exploração", diz o documento.

 

Investigação. O delegado Silvio Maués, diretor de Polícia Judiciária do Interior do Pará, disse ontem que o casal não registrou nenhum boletim de ocorrência sobre as ameaças que sofria. Segundo ele, a polícia está na região para prender os assassinos. Ele informou que todas as pistas estão sendo investigadas, mas considera que ainda é cedo para revelar detalhes sobre o trabalho policial. José Cláudio e Maria foram executados na terça-feira, em uma estrada vicinal da região.

 

A perícia criminal teve dificuldades para iniciar os trabalhos em Nova Ipixuna, por causa da grande quantidade de curiosos, mas garantiu peças importantes de um quebra-cabeças que pode apontar os responsáveis pelas mortes. Os ambientalistas foram atingidos principalmente na lateral esquerda dos corpos, o que indica a direção dos disparos.

 

Segundo o perito criminal José Augusto Andrade, o entorno do atentado também foi todo investigado pelos peritos. "Nos casos de emboscadas, assim como em todos os casos de perícia em locais de crime, a gente trabalha com um limite do entorno do sinistro", explicou. A moto do casal, com manchas de sangue, foi analisada. Os peritos trabalham ainda na verificação dos pertences encontrados com as vítimas. O órgão trabalha com um prazo legal de 10 dias para a conclusão dessas perícias.

 

Na manhã desta quinta-feira, 26, cerca de 2 mil pessoas acompanharam o enterro do casal, em Marabá. Além de familiares e amigos, o sepultamento foi acompanhado por líderes sindicais e militantes do Movimento dos Sem-Terra (MST) e da Federação dos Trabalhadores na Agricultura.

Mais conteúdo sobre:
Pará extrativistas crime

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.