Cenário: A floresta sumiu e o Estado apareceu

Ao viajar pela primeira vez para um Estado da Região Norte, eu esperava ver ao menos um bom trecho da floresta amazônica. Ao mesmo tempo, em pleno Polígono da Violência, no sudeste paraense, não supunha encontrar muitos sinais de ação governamental na área da segurança.

Daniel Bramatti / enviado especial a Marabá, O Estado de S.Paulo

04 Junho 2011 | 19h32

 

Já sabia, é claro, que havia muito desmatamento e áreas de pastagens na região de Marabá. Mas ainda no avião fui surpreendido pela extensão da devastação.

 

No aeroporto, o surpreendente foi encontrar, em plena sala de desembarque, um agente da Polícia Federal, com uma submetralhadora, dirigindo-se a um helicóptero e, depois, ao assentamento extrativista, em Nova Ipixuna, onde haviam sido mortos José Cláudio Ribeiro da Silva e sua mulher, Maria do Espírito Santo.

 

Nos cerca de 60 quilômetros de estrada para Nova Ipixuna, mais uma vez, nem sinal de floresta – mas órgãos do governo marcaram presença. Cruzamos com equipes de fiscalização do Ibama e das polícias rodoviárias estadual e federal.

 

Pode-se dizer que a resposta do governo foi rápida – mas, ao mesmo tempo, tardia e com resultados questionáveis. Apesar da ação policial ostensiva na região, o fato é que, desde então, a autoria do crime permanece um mistério, e outros dois assassinatos foram cometidos nos arredores.

 

A operação de emergência anunciada pela presidente Dilma Rousseff é necessária e oportuna, mas é bem verdade que providências já poderiam ter sido tomadas – as próprias estatísticas do governo sobre mortalidade, compiladas pelo Ministério da Saúde, mostravam crescimento acentuado e contínuo dos homicídios na região desde 2002.

 

O envio de mais policiais e até de militares deve contribuir para conter a onda de matança em Marabá e cercanias. Da mesma forma, o cerco do Ibama sobre a exploração clandestina de madeira e a produção irregular de carvão deve dar sobrevida a milhares de árvores.

 

Se for uma iniciativa temporária, porém, não há dúvidas de que nada vai mudar. A região voltará a ficar sem governo, e terá ainda menos florestas.

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