Collor reedita discurso de caça a corruptos
Remanescente da república collorida, piloto de jatinho que deu fuga a PC Farias abriu restaurante em Maceió
MACEIÓ - Quem vê a aparência sóbria do hoje maître Jorge Bandeira - cabelos grisalhos, modos finos - não imagina estar diante de um intrépido piloto de jato, capaz de passar a perna na Polícia Federal e na Interpol. Em 1992, ele cruzou vários países em uma fuga espetacular, tirando do Brasil o empresário Paulo César Farias, o PC.
Bandeira foi comandante do Morcego Negro, o jatinho em que PC percorreu o País arrecadando dinheiro antes e depois da eleição de Fernando Collor, de quem foi tesoureiro de campanha. O avião virou símbolo da pujança da chamada República de Alagoas, desmantelada por denúncias de corrupção e um processo de impeachment que tirou Collor do poder.
Atualmente, Bandeira pilota um restaurante num bairro de luxo de Maceió, o Le Corbus. Alguns dos integrantes da tal república estão mortos, como o próprio PC. Outros deixaram a cena política por doença, velhice ou falta de oportunidade. Bandeira e mais alguns tentam esquecer o passado. E reconstruir a vida.
Há até quem queira ver Collor pelas costas, como o major Dário César, ex-chefe da segurança presidencial, hoje coronel e comandante da PM alagoana. Mas uma ala resistente sonha, 20 anos depois, com um novo apogeu.
É o caso de Euclides Mello, Margarida Procópio e Luiz Romero, que se engajaram na campanha pela volta do chefe ao poder. Mas o "caçador de marajás" chega hoje às urnas empatado nas pesquisas com o atual governador Teotônio Vilela Filho (PSDB) e o ex-governador Ronaldo Lessa (PDT). Os 2 milhões de eleitores alagoanos estão tomados pela incerteza.
A corrida pelo Senado é liderada pelo senador Renan Calheiros (PMDB). A segunda vaga está embolada entre a vereadora Heloísa Helena (PSOL) e o deputado federal Benedito de Lira (PP). Serão eleitos também 9 deputados federais e 24 estaduais.
Com tradição de violência e fraudes, o Estado é alvo de esquema especial de segurança montado pela Justiça Eleitoral. A Polícia Militar cancelou as férias na corporação e distribuiu seus 7.500 policiais pelos 102 municípios, com atenção redobrada para Maceió e 15 cidades mais problemáticas. Tropas federais reforçarão a segurança.
‘Munheca’. É nesse ambiente político que a República de Alagoas tenta ressurgir. Primeiro presidente eleito após a redemocratização do Brasil, em 1989, numa disputa em que derrotou os grandes partidos e humilhou alguns monstros sagrados, Collor montou, em 1990, o tal núcleo de poder doméstico.
Agora, com campanha agressiva, vem estimulando a imaginação desses fiéis seguidores. No discurso de encerramento de campanha, quinta-feira, ele brandiu os punhos no ar, como nos velhos tempos, e prometeu usar sua "munheca" justiceira para varrer os corruptos do Estado. O povão foi ao delírio.
Não é o caso de Bandeira, que teve a vida destruída. Preso na Argentina, ele cumpriu dois anos. Solto em 1996, pouco antes da morte de PC, teve problemas para retomar a carreira e acabou montando o Le Corbus, na Praia de Pajuçara. Ele conta que a sugestão foi dada pelo amigo Claude Troisgros. "Ao me dedicar à cozinha, vi que a vida tem muitos encantos e o melhor é olhar para frente."
Bandeira casou pela segunda vez e leva uma vida confortável. Culto, gosta de arte, bebe bons vinhos e viaja com frequência para a Europa. "Pilotar, agora, só de vez em quando, por hobby."
Daquele período tumultuado, garante guardar boas lembranças apenas da convivência com PC. O resto, preferiu deletar. Bandeira dá a entender que mantém alguma estima por Collor, a quem dedicou uma especialidade, o Filé Presidente: um bife alto, temperado com molho shoyu, sal, pimenta e manteiga e servido com cabelo de anjo. Está pensando em criar um prato em homenagem a PC Farias.
Sobre o esquema de corrupção articulado por PC, Bandeira divaga um pouco. A seguir, faz uma comparação: "A corrupção eleitoral e os métodos de arrecadação de hoje estão muito piores, mais escancarados." / COLABOROU RICARDO RODRIGUES
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