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Comissão da Verdade inocenta ex-presos políticos por atentado em Recife

Na mesma audiência, atestado de óbito indicando tortura como causa da morte de estudante em 1971 foi entregue à família

10 de dezembro de 2013 | 21h 24
Angela Lacerda - O Estado de S. Paulo

Recife - A Comissão Estadual da Verdade Dom Helder Câmara apresentou nesta terça-feira, 10, no Recife, documentos dos órgãos de segurança pública que inocentam o ex-deputado federal Ricardo Zarattini e o engenheiro Ednaldo Miranda, falecido em 1997, da autoria do atentado a bomba no aeroporto internacional dos Guararapes, no Recife, em 1966, durante a ditadura militar. Duas pessoas morreram e outras 14 ficaram feridas na explosão.

Zarattini e Miranda foram acusados de atentar contra o general Arthur da Costa e Silva. O então candidato a presidente da República era esperado no aeroporto naquele dia, mas decidiu fazer de carro a viagem, saindo de João Pessoa (PB).

Zarattini e a viúva de Ednaldo, Maria Lucila Miranda, receberam o documento com o carimbo "confidencial" do Serviço Nacional de Informações (SNI) das mãos do governador Eduardo Campos (PSB), que instituiu a comissão estadual da verdade através de lei em junho do ano passado.

O documento afirma que o autor do atentado foi o militante da Ação Popular (AP) Raimundo Gonçalves de Figueiredo, "numa ação isolada, à revelia do comando da AP".

Zarattini relembrou, em discurso, que ele e Ednaldo enfrentaram torturas nas dependências do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e da Aeronáutica para confessar um crime que não cometeram. Ele foi preso, conseguiu fugir e não chegou a ser condenado pelo crime. Já Ednaldo Miranda foi condenado a dois anos de prisão. Emília Miranda, filha de Ednaldo, afirmou que a vida do pai foi marcada por este episódio e agradeceu emocionada pelo resgate da verdade.

Retificação. Na mesma a audiência, a Comissão da Verdade retificou, por determinação judicial, a certidão de óbito do estudante Odijas Carvalho de Souza, aluno do curso de Agronomia na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), que fazia militância política contra o regime de exceção e foi morto em 1971.

O documento, que indicava que ele havia morrido por causas naturais, foi alterado para informar que ele havia sido alvo de "homicídio por lesões corporais decorrente de atos de tortura" e entregue à viúva, a socióloga Maria Lucila Bezerra.

Em seu depoimento, Maria Lucila, que também foi presa no Recife junto com o marido, lembrou da angústia, de não ter notícia do paradeiro do marido. Ela contou que Odijas sempre cantava a música "Foi um rio que passou em minha vida", de Paulinho da Viola, e, certo dia, no pátio da prisão, assoviou a música em direção à ala onde companheiros seus estavam presos. E recebeu em troca, também assoviada, uma música que falava em morte. Foi assim que soube que Odijas havia sido assassinado.

O governador Eduardo Campos afirmou que, num dia simbólico em que se comemora o dia internacional dos direitos humanos, duas mentiras vieram à tona com o trabalho da comissão. A morte de Odijas foi considerada por ele "um crime político pelo Estado Brasileiro, pelo arbítrio" enquanto a versão inverídica do atentado a bomba foi utilizado para dividir a resistência ao golpe militar. Ele pregou a continuação das investigações pela comissão.

O coordenador da comissão, o ex-deputado Fernando Coelho, ressaltou a dificuldade de conseguir documentos comprobatórios da época, pesquisados no Arquivo Nacional. "Houve até um golpe de sorte porque eles tiveram tempo e tiraram muita coisa dos arquivos." Coelho informou que, depois que a comissão for encerrada, mais de 50 mil documentos serão expostos em um "memorial da democracia" para que os historiadores e interessados continuem trabalhando.






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