Dirceu nega acusação de propina e diz que situação é 'kafkiana'
Ex-ministro é citado como facilitador na liberação de verba em vídeo com prefeito de Juiz de Fora
O ex-ministro e deputado cassado José Dirceu (PT) negou nesta sexta-feira, 13, em seu blog a acusação de que teria intermediado a liberação de R$ 70 milhões para a prefeitura de Juiz de Fora, cujo prefeito, Alberto Bejani, foi preso na última quinta na Operação Pasárgada da Polícia Federal. "Quero repelir e repudiar a acusação infame e vil de que possa ter participado de qualquer trato para liberar recursos em troca de propina", afirma. Dirceu diz estar indignado com o que chama de "situação kafkiana", em referência a obra de Kafka, em que o protagonista é preso sem que tivesse cometido crime algum e não sabe por que nem por quem foi acusado. Veja também: PF prende prefeito de Juiz de Fora Em vídeo, Bejani recolhe dinheiro e fala de Dirceu Ministro nega pressão de Dirceu por verba a Juiz de Fora Na última quinta, um vídeo divulgado no site da revista Época mostra Bejani recolhendo sacos de dinheiro - supostas propinas pagas por um empresário - enquanto fala de um encontro que teria em Belo Horizonte, horas depois, com o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, para tratar da liberação de R$ 70 milhões para a prefeitura. "Sabe quanto isso dá de comissão? R$ 7 milhões", diz o prefeito. O ex-ministro nega que tenha se encontrado com Bejani, diz que está à disposição da Justiça e da PF para qualquer esclarecimento e não teme investigações. O vídeo foi apreendido pela PF na primeira fase da Operação Pasárgada, em abril passado, quando o prefeito foi preso pela primeira vez. Os responsáveis pela investigação descobriram, segundo a Época, que a gravação foi feita por um empresário que supostamente pagava propinas para o prefeito. De alguma maneira, o material foi recuperado por Bejani e guardado na prefeitura, onde acabou apreendido pela PF. Além de Bejani, a operação da PF prendeu outras 12 pessoas suspeitas de integrar esquema de liberação irregular de verba do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). O suposto esquema teria causado rombo de R$ 200 milhões nos últimos três anos. Foram expedidos 47 mandados de busca e apreensão, além da apreensão de carros de luxo e imóveis na capital mineira, em Juiz de Fora e em Cabo Frio (RJ). Cerca de 200 agentes federais participaram da ação. A nova fase da Pasárgada apura relações entre a Prefeitura de Juiz de Fora e as de outros municípios com prestadoras de serviços contratadas sem licitação. Numa empresa investigada, em Belo Horizonte, os policiais apreenderam US$ 700 mil em ações ao portador de offshores no Uruguai, cuja autenticidade ainda será comprovada.
Bejani foi preso em casa, por volta das 6 horas. Segundo o delegado Moretti, há indícios da procedência ilícita do montante de R$ 1,120 milhão em espécie encontrado na casa do prefeito quando foi preso pela primeira vez. A PF também achou indícios de fraude em sua versão: ele alegou que os recursos vieram da venda da Fazenda Liberdade, no município vizinho de Ewbank da Câmara.
De acordo com Bejani, a propriedade (de 92,41 hectares) foi vendida por R$ 1,2 milhão ao advogado Marcelo Abdalla da Silva. À PF, Abdalla confirmou o negócio, mas não reconheceu o dinheiro apreendido na casa do prefeito e foi indiciado. Posteriormente, o advogado afirmou que estava recebendo ameaças para não divulgar à polícia informações sobre o caso.
"Ele (o prefeito) alegou que era um contrato de compra e venda de uma propriedade. Nós obtivemos indícios, provas, de que não foi esse contrato que deu origem àquele dinheiro", disse o delegado. "Nós desconstituímos essa alegação. Por enquanto, ao nosso ver, esse dinheiro não tem procedência comprovada. Ou seja, ele pode ser produto de ilícito."
A Câmara de Juiz de Fora já instalou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar Bejani pelas suspeitas de liberação indevida de recurso do FPM, desvio de verbas e enriquecimento ilícito.
(Com Eduardo Kattah, de O Estado de S. Paulo)
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