'Discurso adotado por Dilma é parecido com o do Serra e Alckmin'
Carlos Melo, doutorado na Ciências Políticas na PUC-SP e professor do Insper, avalia em entrevista ao 'estadão.com.br' as perspectivas do PT para as eleições de 2012 em São Paulo
A imagem construída pela presidente Dilma Rousseff no seu primeiro ano de governo pode ser fundamental para o PT voltar a crescer no interior de São Paulo, afirma o cientista político e professor do Insper, Carlos Melo. Segundo ele, o estilo "mais conservador e moralista" da presidente pode ditar as características dos candidatos do PT no Estado para aumentar a presença do partido nas próximas eleições.
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Melo se baseia nos números das duas eleições presidenciais disputadas pelo PT contra governadores paulistas (2006 e 2010) para concluir que houve uma divisão no eleitorado brasileiro por faixas de renda. "O PT teve uma enorme penetração no Nordeste, Norte e nas regiões mais pobres do Sudeste e do Sul. Mas em municípios mais ricos houve uma opção pelo PSDB nestas duas eleições", observa.
Ele frisa que no Estado de São Paulo, onde há "municípios relativamente ricos, relativamente desenvolvidos", a divisão significou uma crescente indisposição com o PT e com a imagem do ex-presidente Lula, que para ele teria se tornado "uma figura controversa" no interior do Estado.
Melo classifica como extraordinário o fato de Lula ter transferido para Dilma 100% dos seus votos em SP, mas aponta como curioso o petista ter conseguido crescer no Brasil todo, menos em São Paulo, onde o partido manteve o patamar de votos em 2006 e 2010.
A aproximação com Fernando Henrique Cardoso e a parceria com o governador paulista, Geraldo Alckmin, segundo Melo, pode ser um dos fatores que contribuiriam para diminuir a resistência ao PT em SP.
Leia abaixo a entrevista:
Como o senhor vê a situação do PT no Estado de São Paulo, nas regiões distantes das áreas de maior influência do partido?
A situação é difícil porque sempre houve muita resistência ao PT. Também é verdade que o PT tem crescido ao longo desses anos todos. (O PT) Deu um salto, como os números mostram, de 2002 para cá. Basicamente dobrou o número de prefeituras durante o governo Lula. No entanto, Lula só começa a crescer vertiginosamente em 2008. A Dilma e o Lula, em 2006 e em 2010, tiveram em torno de 34% (fora da Grande São Paulo), que mais ou menos é o teto do PT no Estado todo. O PT parte disso, dos 30%. O Lula sensibilizou pelo câncer. O PT cresceu, tem um numero maior de prefeitos e vereadores hoje, tem a máquina, tem recursos. O PT, hoje, tem menos de 10% dos municípios e pode crescer um pouco mais, porém partidos como o PSDB, o PMDB e o PTB ainda são muito grandes e muito organizados no interior de São Paulo. São partidos mais conservadores, que despertam uma rejeição menor e têm mais o perfil do interior do Estado. Acho que o PT tem condições para crescer.
Após a vitória de Lula em 2002, o PT deu um salto em número de prefeituras e vereadores. Na eleição seguinte, praticamente não avançou. Como o senhor avalia a performance do partido antes e após a eleição de Lula em 2002?
Você tem aí dois pontos. Em 2000, o PT não era governo. Ainda assim, a Marta Suplicy ganha a eleição em São Paulo. O PT foi para a eleição de 2004 tendo a máquina federal, a máquina paulistana e mais organizado do que nunca na sua história. Então esse salto é natural e explicado. Em 2008, no entanto, não manteve isso. Talvez o PT tenha, em 2004, dado o salto que podia dar e tenha chegado ao seu limite. 2008 pode ser a prova dessa teoria. Por outro lado, a eleição de 2006 foi muito pesada para o Lula. Ou seja, se o Lula tem em média 40% em 2002, ele observou uma queda muito grande no Estado de São Paulo em 2006.
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