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Disputas por mulheres e território teriam embasado relatos

Segundo relato repetido em aldeias katukinas, uma mulher sofreu tentativa de rapto por um isolado

09 de fevereiro de 2010 | 13h 48
Roberto Almeida e JF Diório, enviados especiais

Índia Katukina amamenta seu filho na aldeia Boca do Biá. Foto: JF Diório/AE

CARAUARI (AM) - Trabalhando a partir de relatos de índios katukinas da Terra Indígena Rio Biá, no sudoeste do Amazonas, a expedição da Frente Etnoambiental Vale do Javari completou neste domingo, 24, sua última entrada na mata, que teve duração de cinco dias. Contudo, nenhum vestígio de índios isolados foi encontrado e restaram duas hipóteses sobre o porquê katukinas teriam criado histórias sobre "índios bravos". As possibilidades envolvem supostas disputas por mulheres e território.

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A equipe da Frente de Proteção, chefiada pelo indigenista Rieli Franciscato, andou um dia em voadeiras, subindo um igarapé afluente do Rio Biá, e caminhou por outros quatro dias, para um total de 50 quilômetros percorridos. O trajeto foi acompanhado pelo índio katukina Carnaval, que afirmava conhecer detalhes do suposto encontro entre katukinas e isolados. Durante a expedição, ele negou ter sido o responsável pelos rumores.

Para Franciscato, há duas hipóteses que justificariam a criação de um "mito" sobre a existência de isolados em área próxima às aldeias. Os katukinas temem o "índio bravo" e uma suposta aparição poderia justificar disputas por mulheres e por território, sem gerar conflito imediato entre os membros da etnia.

O primeiro boato sobre "índios bravos" próximos à Terra Indígena Rio Biá surgiu há mais de um ano. Segundo relato repetido em pelo menos três aldeias katukinas, uma mulher chamada Luana sofreu uma tentativa de rapto por um isolado. Assustada, ela teria gritado e se desvencilhado do índio.

A versão, de acordo com o indigenista, era fantasiosa, mas merecia ser checada. Como a expedição não encontrou vestígios, restou a possibilidade de que um índio katukina, desejando uma mulher já casada com outro índio, tenha se pintado de urucum e tentado raptá-la.

Disfarçado, ele supostamente não feriu as normas sociais do grupo, apelando para o mítico "índio bravo". Porém, a interpretação é apenas hipotética.

Katukinas das aldeias Janela - onde supostamente ocorreu o rapto - e Bacuri não confirmaram a ação, mas se divertiram ao saber que a história tinha ultrapassado os limites das aldeias e chegado a cidades distantes, como Tabatinga, Manaus e até Brasília.

A segunda hipótese tem como base uma disputa territorial entre katukinas. De acordo com relato do índio Carnaval, que acompanhou a expedição, um katukina chamado Manoel afirmou ter tido contato direto com os isolados exatamente na área expedicionada pela equipe da Frente de Proteção. Assustado, teria corrido para contar para toda a aldeia o ocorrido.

No entanto, a expedição verificou que a área é abundante em dois tipos de árvore, Violeta e Jutaí, cujas cascas são utilizadas pelos katukinas para fabricação de canoas. Segundo a versão de Carnaval, o índio Manoel, assim como na hipótese anterior, teria se utilizado do mito do "índio bravo" para manter o território sob seu domínio e garantir a madeira, difícil de ser encontrada nas áreas próximas às aldeias.

Uma terceira possibilidade, considerada "muito remota" pelo chefe da expedição, é que os katukinas tenham de fato topado com isolados em perambulação, mas que tenha sido um evento único. Se esta hipótese for verdade, os isolados ocupariam outro ponto da região adjacente à Terra Indígena Rio Biá. Não há, contudo, qualquer indício de sua presença nos trechos percorridos pela Frente de Proteção.




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