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Documentário traz à tona 'vítima' de vítimas da ditadura

20 de janeiro de 2010 | 20h 41
GUILHERME MEIRELLES - Agencia Estado

No momento em que entidades civis e militares discutem uma possível revisão da Lei da Anistia, proposta no texto do 3º Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH), o lançamento de um filme-documentário deve elevar ainda mais a temperatura do debate. Concluído no final do ano passado, o longa-metragem "Reparação" aborda a saga do então piloto Orlando Lovecchio Filho, que teve parte da perna esquerda amputada devido a uma bomba colocada junto à biblioteca do consulado dos Estados Unidos, em São Paulo, no dia 19 de março de 1968, auge da ditadura militar. Anistiado como vítima da repressão, o autor do atentado, Diógenes Carvalho de Oliveira, do grupo Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), foi contemplado pela Comissão de Anistia com uma pensão vitalícia de R$ 1.627,00, além de ter recebido R$ 400 mil por atrasados. Já Orlando, obteve, tão somente, em 2004, uma pensão do INSS por invalidez, hoje no valor de R$ 635,79. A intenção dos produtores do filme é colocá-lo em circuito comercial neste primeiro semestre. Mas, pelo menos por enquanto, esbarram na dificuldade de encontrar uma distribuidora disposta a apostar no sucesso comercial da obra.

"Não acredito que haja pressão ou preconceito ideológico. Estou em busca de uma distribuidora que acredite no projeto. O problema é que, no Brasil o cinema é extremamente dependente das verbas do governo federal, que é usada inclusive para os custos de distribuição. Nosso trabalho foi feito de forma independente, sem dinheiro do governo ou de patrocínios", afirma o cineasta Daniel Moreno, sócio de uma pequena produtora paulista. Feito com recursos inferiores a R$ 100 mil, segundo o diretor, o documentário tem 93 minutos e foi totalmente gravado em alta definição. "É o tipo de documentário clássico, com depoimentos e imagens de arquivo, algumas compradas, outras obtidas do próprio Orlando Lovecchio", diz Moreno.

Sempre centrado no drama de Lovecchio pela busca de uma indenização que considera mais justa, o filme conta com depoimentos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do historiador e professor da Universidade Federal de São Carlos Marco Antonio Villa, do geógrafo e sociólogo Demetrio Magnoli, e da pesquisadora da Unicamp, Glenda Mezarobba, autora do livro " Um Acerto de Contas com o Futuro - a anistia e suas consequências: um estudo do caso brasileiro" (Editora Humanitas), entre outros. Uma frase de Glenda no filme expressa a linha da obra, segundo o diretor. "Todas as vítimas do regime militar têm direito à reparação", afirma a pesquisadora, no trailer do filme, que pode ser visto pela internet no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=8d61_1u1s2o

Documentários que esclareçam ou revelam detalhes do conturbado período da ditadura militar no Brasil (1964-1985) têm se tornado mais comuns nas salas brasileiras. No ano passado, o longa-metragem "Ninguém Sabe o Duro que Eu Dei" foi uma prova da curiosidade em torno de episódios nebulosos, como o que envolveu o cantor Wilson Simonal (1939-2000), que teve sua carreira praticamente encerrada por ter sido acusado de "dedo-duro" das forças de repressão. Atualmente, está em cartaz em São Paulo a produção independente "Cidadão Boilesen" , sobre a participação do empresário dinamarquês Henning Albert Boilesen, que teria contribuído financeiramente em favor da tortura durante a ditadura.

"Decidi fazer o filme quando tomei conhecimento do caso do Orlando, há cerca de três anos. Afinal, qual o conceito para estabelecer o valor de uma indenização?", diz Moreno. Na opinião do diretor, o que existe são grupos no poder que direcionam as diretrizes de concessão de indenizações conforme os seus interesses ideológicos. "Usando o conceito marxista, parece que o conceito de luta de classes esteve presente no momento da reparação", afirma, no filme, o historiador Marco Antonio Villa.

Segundo dados da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, desde 2003 até o primeiro semestre do ano passado, foram pagos cerca de R$ 2,6 bilhões em forma de indenizações e pensões aos anistiados políticos, com base na Lei de Anistia (Lei 6.683/79) e na reformulação contida na Lei 10.559, de 2002. O critério obedecido foi o de contemplar o pagamento para os civis que tiveram, na avaliação da Comissão de Anistia, suas carreiras interrompidas pela repressão.




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