Economia dita vaivém da popularidade
Lula encerra mandato com recorde de avaliação positiva, embalado por transferências de renda, maior consumo e queda no desemprego
Em pesquisas de avaliação do governo, vale o saldo. Do total de ótimo/bom, subtrai-se a soma de ruim/péssimo: resultado positivo é aprovação; negativo, desaprovação. O "regular" não conta. Nesse critério, Luiz Inácio Lula da Silva bateu o recorde presidencial de José Sarney.
A série histórica do Ibope mostra que muita coisa mudou entre um e outro. Mas o motivo subjacente que orientou as curvas de popularidade do governante de plantão segue sendo o mesmo: o desempenho da economia.
Nos primeiros governos pós-ditadura, o padrão brasileiro era um presidente assumir com enorme esperança da população e, em seguida, gerar grande frustração, sempre em meio a uma crise econômica. Foi assim com Sarney e Fernando Collor. Itamar Franco escapou por pouco.
Euforia. Vice de Tancredo Neves empossado pela doença e morte do eleito no Colégio Eleitoral, Sarney teve seu momento de glória após um ano de governo, quando o Plano Cruzado pareceu controlar a inflação. Mas a aprovação durou poucos meses, como o sucesso do plano.
Em março de 1986, após o congelamento de preços decretado poucos dias antes, o maranhense chegou a 71% de ótimo/bom e 2% de ruim/péssimo: saldo de 69 pontos. Havia quem usasse espontaneamente buttons dizendo-se "fiscal do Sarney". Seria um "céu" efêmero.
No gráfico que ilustra esta página, esse é o ponto mais alto do começo da série. Quando a curva cai abaixo de zero, é sinal de desaprovação do governante. Quanto mais alta a curva, maior a popularidade presidencial.
Abismo. O Cruzado não demorou a fazer água: no fim de 1986, após a eleição maciça de governadores do PMDB – em 26 das 27 unidades da Federação –, a inflação saiu de controle. A popularidade de Sarney foi afundando à medida que ele trocava de ministro da Fazenda e o País chegava cada vez mais perto da hiperinflação.
Se perdeu o recorde positivo, Sarney mantém o de presidente que caiu mais fundo no abismo da impopularidade: em novembro de 1989, três meses antes de entregar o cargo, chegou a 60% de ruim/péssimo e inflação de 2.000% ao ano. O ministro da Fazenda era Mailson da Nóbrega.
Decepção. Primeiro presidente eleito diretamente em décadas, o sucessor descreveu uma trajetória muito parecida, embora mais curta. Nada menos do que 59% dos brasileiros esperavam que Collor fizesse um governo ótimo ou bom. Apenas dois anos depois, 41% o tachavam de ruim ou péssimo.
Entre o pico e o vale de sua popularidade, ele confiscou a poupança – por obra da ministra Zélia Cardoso de Mello –, viu a inflação voltar à casa do milhar, afundou-se em denúncias de corrupção e acabou por renunciar para evitar o impeachment.
Estabilização. Itamar assumiu com uma expectativa mais baixa. Não só pela má impressão deixada pelos antecessores, mas porque a crise econômica era séria. Em 1993, o Índice Geral de Preços (IGP) chegou a inacreditáveis 2.851% ao ano. Itamar mexeu na Fazenda tanto quanto no topete.
Depois de tentar alguns ministros mineiros como ele, Itamar acabou surpreendendo ao nomear um chanceler intelectual para comandar a economia. Os maldosos diziam que era falta de opção. Mal sabiam que graças a isso Fernando Henrique Cardoso ganharia status de sigla, como JK e ACM.
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