Antonio Cruz/ABr
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Governo tenta conter greves com apresentação de propostas

Sindicatos avaliam que cerca de 350 mil servidores já aderiram às paralisações em todo o País; dentre as reivindicações estão aumento salarial e melhores condições de trabalho

Ana Flor e Hugo Bachega, da Reuters

24 Julho 2012 | 17h18

Em mais uma semana de queda de braço entre a presidente Dilma Rousseff e servidores federais em greve, o governo tenta conter a ampliação do movimento, que já dura dois meses, para setores estratégicos, como Polícia Federal e Receita, e poderá fazer novas propostas a categorias nos próximos dias, disseram à Reuters fontes governamentais.

O desafio do Planalto é resistir à pressão por aumento de gastos diante do cenário externo adverso e a desaceleração da economia brasileira, que podem ameaçar o esforço fiscal, enquanto sindicatos pedem por novas propostas para que as negociações avancem.

Categorias como Vigilância Sanitária, também em greve, e Receita Federal, que iniciou operação-padrão em portos, já afetam a entrada e saída de produtos do país. Servidores de diversos ministérios, agências reguladoras e Eletrobras também estão parados.

Para o novo presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, o problema tem sido a ausência de negociação por parte do governo.

"A greve não pode transcorrer sem que o governo faça propostas... Propostas econômicas, no sentido de estabelecer o processo de negociação, disse ele. "No caso dos docentes, há uma proposta... O que não ocorre com outros setores em greve, porque não há nenhuma proposta efetuada."

Dilma determinou como prioridade a Educação e militares de baixa patente, por considerar as categorias mais defasadas, disseram assessores do Planalto, que falaram à Reuters sob condição de anonimato. Segundo eles, a presidente descarta ampliar a outros servidores reajuste como o oferecido aos docentes --que rejeitaram a proposta feita há cerca de 10 dias.

A lista de reivindicações das categorias inclui recomposição salarial, reestruturação da carreira e melhores condições de trabalho. Os pedidos de aumento variam de 4 por cento a 150 por cento.

À frente das conversas, a ministra Miriam Belchior ressalta os ganhos das categorias desde 2003 --início da gestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva-- e diz que o governo não pode fechar uma proposta agora porque está refazendo os cálculos e as projeções de crescimento.

Em uma demonstração de que quer endurecer com os grevistas, o governo pediu que as instituições afetadas identificarem quem está ou não em greve.

"No caso das universidades, para reposição, e outros casos para desconto em folha ou reposição, de acordo com a circunstância", disse a ministra a jornalistas.

Sindicatos rejeitam argumento da crise. Cerca de 350 mil servidores já teriam aderido à paralisação em todo o Brasil, de acordo com a Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Federal (Condsef).

"Enquanto o governo não tratar o movimento com seriedade, não tem como recuar. Até o governo apresentar uma proposta, o movimento continua. Não aceitamos o discurso de crise", disse o diretor-executivo da Condsef, Sérgio Ronaldo da Silva.

Uma arma adicional com a qual o governo tenta obter ajuda é a divulgação dos altos salários de algumas categorias, como as agências reguladoras, nas quais em muitos casos os ganhos iniciais estão acima de 10 mil reais.

"A valorização nestas e em muitas outras carreiras federais foi muito acima do que ocorre na iniciativa privada", avaliou outra fonte do Planalto.

 A conta não fecha. Enquanto o governo vem rejeitando conceder reajustes, apontando as incertezas com a crise internacional, que deve continuar a afetar o Brasil em 2013, as paralisações aumentam pelo país. O recado que o Planalto tenta reforçar é de que há uma crise lá fora e não há dinheiro para aumentos agora.

O impacto das reivindicações de reajustes, caso fossem atendidos, seria de 92 bilhões de reais, equivalente à metade da folha de pagamento atual ou cerca de 2 por cento do Produto Interno Bruto (PIB), segundo cálculos do Ministério do Planejamento.

Para o economista Felipe Salto, da Tendências Consultorias, Dilma conseguiu conter os reajustes no ano passado, mas terá que ceder parcialmente às pressões neste ano, elevando os gastos do governo com pessoal.

"O principal efeito do ponto de vista fiscal vai ser no ano que vem, com redução do superávit primário", disse Salto, que vê descumprimento da meta do governo em 2013, alcançando 2,5 por cento do PIB.

A avaliação da consultoria de risco Eurasia também é de que 2013 promete uma piora no quadro, uma vez que mais categorias tendem a pressionar por aumentos. Segundo o grupo de avaliação de risco político, a greve do servidores públicos é vista como a principal ameaça política que o governo enfrenta atualmente.

A presidente determinou que os ministros Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral, e Ideli Salvatti, das Relações Institucionais, se envolvam mais nas negociações, assim como quer mais empenho dos responsáveis pelas pastas afetadas pela paralisação.

(Reportagem adicional de Jeferson Ribeiro) 

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