Milícia indígena completa um ano comemorando expansão
Segundo cacique, objetivo é preencher vácuo deixado pela PF e Funai no combate a violência
O Estado caminhou com a milícia por uma hora dentro da aldeia e a comunidade mostrou-se indiferente. O clima era de aparente tranquilidade. Mas sua presença divide opiniões. Ticunas não a consideram uma polícia oficial e são obrigados a obedecer a um toque de recolher, às 22h. Enquanto isso, a Polícia Federal investiga duas mortes ocorridas em aldeias próximas a Umariaçu. A suspeita caiu sobre membros da Piasol.
O modelo da milícia foi copiado em oito localidades, cada uma com sua Companhia, em que há relatos de uso de espingardas de caça. Os membros da 1ª Companhia em Umariaçu mostraram-se orgulhosos da expansão.
Milícia remunerada
O próximo passo da Piasol em Umariaçu, contou o cacique, é tentar uma lei que garanta remuneração do governo para os membros da milícia. Hoje, eles dizem viver de "doações voluntárias da comunidade". O objetivo, acordado por todos na "delegacia", é oficializar a "polícia indígena".
A última investida da 1ª Companhia foi pedir ao Ministério Público Federal para portar armas, o que foi negado. No entanto, os índios afirmam manter a intenção "para impor respeito".
O procurador federal em Tabatinga, Juliano Baggio Gasperin, que negou recentemente a utilização de armas por membros da Piasol, pediu para que o único antropólogo do Ministério Público Federal do Amazonas, Walter Coutinho, fosse à aldeia Umariaçu para avaliar a atuação da milícia. "Sem um laudo antropológico não podemos nos manifestar. Temos de zelar pelos costumes e tradições deles. Eles têm formas próprias de solução de conflito", afirmou.
O requerimento para que o antropólogo compareça a Tabatinga foi feito há três meses, antes dos assassinatos, mas a previsão é de que os trabalhos só comecem de fato em janeiro ou fevereiro. "Qualquer medida tem de ter uma opinião de especialista", observou. "Só assim poderemos avaliar o pedido deles de reconhecimento."
Para Gasperin, o caso é de "grande complexidade" e levará tempo para ser solucionado. "Ficar do jeito que está não dá, mas teremos de aguardar", disse. De acordo com ele, o laudo possibilitará à procuradoria entender se a "polícia indígena" tem de fato legitimidade nas aldeias.
Para o inquérito aberto pela Polícia Federal, agentes continuam colhendo depoimentos sobre os dois assassinatos nas comunidades onde a milícia atua. A Funai afirmou, por meio de sua assessoria de comunicação, que não reconhece o status de polícia dos ticunas. E que não recebeu nenhuma comunicação oficial da Funai em Tabatinga alertando para riscos da atuação da milícia.
Porta-voz culpa magia negra
Vestindo um tênis all-star, gestos contidos, magro e com apenas 26 anos, o cacique Santo Mestâncio Alexandre é o porta-voz da Piasol. No dia 24 de novembro, ele assumiu com orgulho a responsabilidade sobre a milícia que atua na aldeia de Umariaçu. Esbraveja quando diz que "a imagem do índio é de gente jogada bêbada pelas ruas" e afirma que está "fazendo o melhor para a comunidade".
O cacique sentou-se à única mesa da "delegacia" para explicar ao Estado como funciona a Companhia e acabar com o "mal entendido" sobre as duas mortes das quais membros da Polícia Indígena do Alto Solimões são suspeitos. "Fiquei muito triste", disse, reforçando a entonação. "Porque a Polícia Federal ficou de olho nos indígenas." De acordo com o cacique, um dos assassinatos ocorreu porque um pajé havia enfeitiçado membros da comunidade em São Paulo de Olivença. O outro, por culpa de magia negra. "Não tem nada a ver com a polícia indígena, mas se alguém não acabar com essas coisas (feitiços e magia negra), isso vai continuar", disse.
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