No palco do Rock, o grito de Dinho Ouro Preto pela liberdade de imprensa
Experiente líder do Capital Inicial revitaliza debate sobre a politização dos jovens; assista ao vídeo onde o cantor faz críticas a Sarney
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ESTADÃO ESPN: Ouça a fala de Dinho Ouro Preto no Rock in Rio

Em 1985, o Brasil assistia à primeira edição do festival de música Rock in Rio. No quinto dia do encontro, 15 de janeiro, enquanto bandas como AC/DC e Barão Vermelho se revezavam no palco da Cidade do Rock, o País vivia um momento de otimismo: Tancredo Neves e José Sarney eram eleitos pelo Colégio Eleitoral presidente e vice-presidente do País, depois de duas décadas de ditadura.
Passados quase trinta anos e seis eleições diretas para presidente, José Sarney voltou a aparecer como protagonista político na quarta edição brasileira do festival. Mas, dessa vez, as menções ao presidente do Senado ocorreram em contexto menos elogioso e de maneira mais direta.
“Essa daqui, velho, é para as oligarquias, cara, que parecem ainda governar o Brasil. Que conseguem deixar os grandes jornais brasileiros censurados durante dois anos, como o Estado de S. Paulo. Cara, coisas inacreditáveis... Essa daqui é para o Congresso brasileiro. Essa daqui é em especial para o José Sarney. Isso daqui se chama Que País é Este”, anunciou o vocalista do Capital Inicial, Dinho Ouro Preto, para uma multidão de cem mil pessoas, no dia 24.
Expoente da geração dos anos 80 do rock nacional, que usou a música como forma de protesto político, Dinho referia-se à censura de 793 dias a que o Estado está submetido desde que o Tribunal de Justiça do Distrito Federal proibiu o jornal de divulgar informações sobre a Operação Boi Barrica, da Polícia Federal, que investigou o empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado.
Aos 47 anos, o músico cantou o clássico de Renato Russo, escrito em 1978, época em que o País vivia uma asfixia política e se preparava para ingressar no cenário de instabilidade econômica dos anos 80. Na plateia do Rock in Rio, milhares de jovens de uma outra geração. Pessoas que nasceram quando já se podia votar para presidente. Jovens que ouviram falar de “plano econômico”, “Cruzeiro” ou “Cruzado” pelos livros escolares e que usam as mídias sociais como forma de protesto, principalmente em questões comportamentais. Enquanto Dinho cantava para essa plateia, a multidão gritava: “Ei, Sarney, vai tomar...”.
Dinho, que diz já ter cogitado se candidatar e conta preferir ler a cobertura jornalística nacional à cultural, conversou sobre política com o Estado na sexta-feira, no Rio: “Está se caminhando para um Brasil moderno enquanto formas muito arcaicas de fazer política continuam enraizadas. Não é possível que o Brasil moderno possa coexistir com o Brasil desses coronéis e oligarcas neandertais”. Em seguida, ponderou: “Neandertais no sentido antigo, não no cerebral”.
Ele diz que são “alarmantes” as agressões à liberdade de imprensa na América Latina. “Quando se resumia a países menores, você conseguia caracterizar como, talvez, um espasmo patrocinado pelo Hugo Chávez (presidente da Venezuela)”, disse. “Mas fica mais grave quando você pega um país com as proporções da Argentina, país que até há pouco tempo era o mais desenvolvido da América do Sul. Aí começo a ficar preocupado. E o mais grave é que a Cristina (Kirchner, presidente) vai se reeleger”, completou.
Para o músico, “historicamente a América Latina tende a caminhar em manada”. “O que acontece num país frequentemente acontece nos outros: o regime militar, a redemocratização e até os movimentos de independência, se quiser ir mais longe”, avaliou. “Congressos do PT falando em controle da imprensa, em regulamentar a imprensa... Não sei o que eles têm em mente, se é algo à la Stalin. O que querem exatamente? A mim parece que as leis existem para coibir abusos: se você se sentir insultado, afrontado ou lesado por alguma notícia”, completou.
Geração. O jornalista e crítico musical Arthur Dapieve diz que a politização foi um marco da geração de Dinho, a dos anos 80, principalmente entre bandas como Legião Urbana e Plebe Rude. “A politização caiu muito com a democratização. Mais fácil ser politizado quando há um antagonista claro, como os militares, a ditadura”, disse. “Os jovens da atualidade não passaram por hiperinflação, por privações maiores, grande crises econômicas. E aquela coisa: se a economia vai bem, eles não veem maiores razões para protestar. Mesmo que façam coro com o Dinho na hora que toca Que País é Este. Há um certo entorpecimento que a boa fase econômica cria. Não só nos jovens, mas com boa parte da população”, avalia.
Para a secretária nacional de Juventude, Severine Macedo, ligada à Presidência da República, não dá para fazer uma comparação entre as gerações. “Hoje a juventude tem um conjunto de pautas, e os grupos se articulam em favor das suas demandas. Não são bandeiras únicas. Então, aparentemente, dá a impressão de que há um processo de desmobilização”, afirmou.
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