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Policial admite ter visto tortura no Dops e no DOI-Codi

25 de fevereiro de 2014 | 21h 05
ROLDÃO ARRUDA - Agência Estado

O policial civil aposentado Manoel Aurélio Lopes, de 77 anos, admitiu nesta terça-feira, 25, em audiência pública da Comissão Nacional da Verdade, em São Paulo, ter presenciado cenas de tortura de presos políticos nas dependências do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), nos anos da ditadura militar. Ele atuou naquela instituição entre 1969 e 1972. Depois foi transferido para o Destacamento de Operações de Informações - Centro de Informações de Defesa Interna (DOI-Codi), vinculado ao 2.º Exército, onde voltou a presenciar torturas, segundo seu depoimento.

Esta foi a segunda vez que um agente de Estado admite perante a Comissão da Verdade, em audiência pública, a existência de tortura nas instituições policiais e militares naquele período. O primeiro foi o policial militar Valter Jacarandá, que prestou depoimento no Rio, em agosto do ano passado.

Lopes era escrivão e, segundo informou, cuidava principalmente da transcrição de depoimentos. Ele negou ter participado de interrogatórios nos quais os presos eram torturados. Ao ser perguntado, porém, se nunca tinha presenciado cenas de torturas, ele admitiu que sim, tanto no Dops quanto no DOI-Codi. Disse que tinha autorização para circular pelas dependências das duas organizações e que testemunhou casos em que o prisioneiro, homem ou mulher, era forçado a se equilibrar sobre duas latas de leite em pó, com os braços abertos e segurando folhas de papel. Quando o detento perdia o equilíbrio ou deixava os braços caírem, apanhava. Entre ex-presos políticos, esse tipo de tortura é conhecido como Cristo Redentor.

Ele também fez referência à cadeira do dragão, que era de ferro e servia sobretudo para aplicar choques elétricos nos prisioneiros. "Outro quadro que presenciei foi o ''pendura''", disse a jornalistas, após a audiência, referindo-se ao chamado pau-de-arara.

Lopes é diabético, tem problemas circulatórios e dificuldades de audição. Na avaliação dele, "aquela foi uma fase do Brasil'', na qual teriam ocorrido "excessos dos dois lados.

Ele contou que os policiais civis que eram transferidos para atuar sob ordens de militares, no DOI-Codi, recebiam uma gratificação extra, em dinheiro. "Era um presente para quem ia trabalhar lá, uma casquinha", observou.

A gratificação não aparecia na folha de pagamento e, segundo Lopes, saía diretamente do gabinete do secretário de Segurança. Todo mês era preciso retirar o dinheiro no gabinete do secretário, que então funcionava na Avenida Higienópolis.






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