Resposta do governo é temporária, acusa ativista

Agricultor que vive no assentamento da irmã Dorothy diz que ações propostas pela União, agora, são iguais às da época em que missionária foi morta

Isadora Peron, de O Estado de S. Paulo

03 Junho 2011 | 23h00

Seis anos após o assassinato da religiosa americana Dorothy Stang, em Anapu, no Pará, o agricultor Fábio Lourenço, que vive no mesmo assentamento onde ocorreu o crime, disse que as ações propostas neste momento pelo governo federal para conter as mortes no campo são muito semelhantes às que foram colocadas em prática naquela época. O problema, segundo ele, é que elas só funcionam temporariamente.

 

"Hoje vive-se sob constante tensão em Anapu. Eu mesmo já sofri várias ameaças de morte." Lourenço, que faz parte da Comissão Pastoral da Terra (CPT), participou ontem de uma reunião da CSP-Conlutas em São Paulo. Segundo ele, por causa da repercussão internacional do caso houve mudanças na região nos meses imediatamente após o assassinato da missionária, como a presença das tropas do Exército para garantir a segurança, o fechamento de madeireiras pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a remarcação de terras pelo Instituto de Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

 

As medidas são semelhantes às anunciadas agora pela União, após cinco assassinatos na região amazônica nas duas últimas semanas. Depois que o casal de líderes extrativistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo foi morto a tiros no dia 24 de maio, em Nova Ipixuna, no Pará, o Ibama também intensificou o trabalho de combate à extração ilegal de madeira no Estado.

 

No início da semana, o vice-presidente Michel Temer reuniu-se com ministros para discutir a questão e, na quinta-feira, a presidente Dilma Rousseff decidiu enviar tropas à área de conflito, em uma operação militar que ainda não tem data para começar, mas que vai reunir a Força Nacional de Segurança, e as Polícias Federal, Rodoviária Federal, Civil e Militar.

 

Chico Mendes. A presidente do Sindicato dos Seringueiros de Xapuri, fundado por Chico Mendes, Dercy Teles de Carvalho Cunha, participou ontem do mesmo evento em São Paulo e disse que considera inadmissível a volta de uma onda de mortes no campo.

 

De acordo com ela, essas pessoas foram assassinadas por denunciar crimes ambientais e, apesar de elas já estarem sofrendo ameaças há muito tempo, autoridades políticas não tomaram providências. "Hoje não adianta a presidente Dilma dizer que esses crimes não ficarão impunes porque isso não vai trazer essas pessoas de volta. As vidas já se foram e, por mais que prendam, como prenderam os assassinos do Chico Mendes, ele não vai retornar."

 

Para ela, a morte de uma liderança traz um prejuízo muito grande para o movimento, porque cria um vazio difícil de ser preenchido. "Isso gera medo, que gera desistência daqueles que atuavam pela causa, porque eles começam a pensar: fulano deu a vida e não resolveu nada, por que eu deveria fazer ao mesma coisa?"

 

Já Lourenço tem uma opinião diferente sobre o assunto. "Essas mortes não afetam nossa luta, só nos fortalece, porque deixa mais gente indignada. É o que eu sempre digo: ‘Vai um, vêm mil’. Foi assim com a perda da irmã Dorothy."

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