Tom Zé: 'Eu participo, mesmo que eles estejam errados'
Músico apóia manifestantes da Jornada pela Educação e diz quais canções tocou ontem no Largo
No meio de tudo aquilo havia um violão, e uma cabeça. O protesto da Jornada pela Educação, contido pela Tropa de Choque da Polícia Militar nesta terça-feira, 21, na Faculdade de Direito do Largo do São Francisco, contou com uma presença ilustre e recorrente da esquerda brasileira. O músico Tom Zé, que já cantou a ditadura, a imprensa, a política e a poesia, levou um violão e se juntou aos estudantes.
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Em entrevista ao estadao.com.br, o tropicalista avalia a esquerda brasileira, a ação "burra" da polícia e a "entropia acelerada" de que emergiu o movimento estudantil. Leia:
Quem chamou você para a manifestação?
O pessoal das universidades em geral tem muito contato comigo desde os anos 1970. Eu participo de todos os protestos. O pessoal da PUC brinca que a reitoria só fica ocupada de verdade quando eu chego (risos). Minha família é do antigo PCB (Partido Comunista Brasileiro), o Partidão. Na Bahia, naquela época, participei muito ativamente do CPC, o Centro Popular de Cultura. É uma velha prática.
Mas para esse movimento em específico, quem te chamou?
Uma pessoa da UNE (União Nacional dos Estudantes) e do PCdoB. Eu perguntei quem estava participando, se eu ia dividir espaço com Maluf ou outros facistas. Mas me disseram que era a UNE, MST, outras organizações de respeito, então fui. Não podemos ficar em nossa torre de cristal e só criticar.
Na sua opinião, a polícia agiu certo em expulsar os manifestantes de dentro da Faculdade de Direito?
A polícia expulsou? Não sabia. Saí de lá às 10 e tanto... (pausa) Então eles fizeram esse favor? É uma burrice sem limite. Logo agora que entrou o governo desse rapaz, como ele chama? O Serra. Parecia ajuizado... A expulsão é de uma falta enorme de tato político. Ainda mais porque o protesto tinha hora para terminar, pela manhã de hoje. Ou os policiais acharam que os estudantes são preguiçosos e iriam acordar tarde? Não estou com raiva nem nada. Mas acho uma estupidez.
Hoje pela manhã, após a expulsão, os estudantes voltaram ao Largo do São Francisco e iniciaram outro protesto, agora contra a ação da polícia. Foram espalhados cartazes com frases relacionando o ocorrido com a ditadura. Uma delas continha as palavras "Maio de 68". A extrema esquerda brasileira, e o movimento estudantil em específico, não estão presos ao passado, a uma realidade que já não é exatamente a mesma?
Os próprios intelectuais do PT falam sobre a despolitização da classe universitária. Isso pode ser que esteja certo... Manifestações como a de ontem são um sinal promissor de que os estudantes estão procurando se engajar mais. Como os movimentos se esvaziaram desde a época da ditadura, há um certo caminho a percorrer para chegar ao presente. Pensando na vida como um todo, a universidade é uma época provisória em que as pessoas começam a se sentir responsáveis pelos excluídos, pelo meio ambiente, pela justiça. Nós precisamos respeitar e entender isso. A universidade ficou muito tempo morta, e a falta de vigília desencadeou esse tipo de política em vigor hoje, um verdadeiro "fundo" (e não frente) de direita. Esse "Cansei" é um absurdo.
Muitos estudantes de Direito protestaram em comunidades virtuais e listas de e-mail, contrários à manifestação. O cenário a que se chegou foi: extrema esquerda contra extrema direita. Esse maniqueísmo é saudável?
Olhe bem para o cenário de que eu venho. Ali no fim dos anos 1960, quando começou a Tropicália, em 67, havia a ditadura e quem fosse contra ela. Mas a esquerda era tão burra e reacionária quanto os ditadores. É difícil achar algo razoável. Mesmo que a razão não esteja explicada, é promissor que se manifestem. Inclusive os de direita. É bom porque se posicionam, é uma consciência política. Morte trágica e entropia acelerada é a falta de manifestação. Por isso eu participo, mesmo que eles estejam errados.
Que músicas você tocou, ontem, na manifestação?
Em geral canções minhas, que são virulentas por si só... (risos). Estava acompanhado do Sergio Caetano, da minha banda, e só tocamos músicas bonitas por natureza. Queremos aumentar o repertório, as referências das pessoas. Sergio começou com bossa nova, tocou Garota de Ipanema, mas aí só alegrou os jovens. Os "MSTeiros" não gostaram muito. Então parti para Novos Baianos e toquei o pout-pourri de Preta Pretinha. Fizemos uma tentativa de acordo estético (risos).
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