Três trajetórias trançadas
Serra, Dilma e Marina foram idealistas, estudaram bastante, superaram dissabores. Cada um a seu modo
SÃO PAULO - José Serra teve de deixar o Brasil e continuar seus estudos no Chile. Dilma Rousseff aderiu à luta armada e foi presa e torturada. Marina Silva precisou sair da floresta e estudar no Mobral antes de defender os seringueiros. Os três principais candidatos que chegam hoje à eleição presidencial têm muitas diferenças de origem, estilo e carreira. Mas têm em comum um passado de situações difíceis e de experiências no que então se chamava de "esquerda engajada" - e suas biografias traduzem boa parte da história do Brasil dos últimos 50 anos. O que o Estado ouviu de alguns dos principais assessores e amigos dos candidatos foi que, se os ideais de juventude já estão distantes, as personalidades ainda guardam muitos de seus traços.
1960
Inauguração de Brasília
Quando a capital federal foi inaugurada pelo presidente Juscelino Kubitschek, o candidato do PSDB, José Serra, tinha 18 anos e estava no primeiro ano de Engenharia Civil na Escola Politécnica, a Poli. Também experimentava um curso de teatro e participou como ator da peça Vento Forte para Papagaio Subir, dirigida por Zé Celso. Descrito por amigos como um jovem que gostava de mulheres e de dançar, era também um dos alunos mais aplicados. Nascido em 19 de março de 1942, na Mooca, desde menino era leitor de biografias de políticos e veloz com as contas e equações. O pai, Francesco, italiano da Calábria, queria que o filho único passasse mais tempo na barraca de frutas do Mercado Municipal, mas a mãe, Serafina, e a avó, Carmela, o queriam concentrado nos estudos. Uma escrivaninha é o presente de infância mais lembrado. Serra retribuiu o gesto chegando até a Poli.
Dilma Rousseff, nascida em 14 de dezembro de 1947, ia completar 13 anos e era estudante do Colégio Nossa Senhora do Sion, em Belo Horizonte. Seu pai, um imigrante búlgaro chamado Pétar Russév, que era do Partido Comunista em seu país natal, trabalhava para uma siderúrgica alemã, Mannesmann, e mantinha a mulher, Dilma, e seus três filhos numa casa ampla, com três empregadas, aulas de francês e piano. "Dilminha" não era nem a melhor aluna nem a mais bonita, mas era conhecida por sua personalidade e inteligência. "Ela sempre chamou a atenção por essas qualidades", diz Carlos Araújo, seu companheiro durante cerca de 30 anos (de 1969 a 2000) e pai de sua única filha, Paula, hoje com 34 anos. "Ela teve ótima formação, era leitora ávida e aos 15 anos já estava no movimento estudantil."
Marina Silva tinha 2 anos. Nascida em 8 de fevereiro de 1958, recebeu o nome de Maria Osmarina da Silva. Tanto seu pai, Pedro, como sua mãe, Maria, tinham o sobrenome "da Silva". Viviam no seringal Breu Velho, em Bagaço, a 70 km de Rio Branco, no Acre, e de seus 11 filhos, 8 sobreviviam, sem acesso a esgoto e escola, no meio da Floresta Amazônica. "Ela é da floresta ainda", diz o jornalista Elson Martins, que convive com ela desde os tempos de Chico Mendes. O assessor da candidata, Antonio Alves, concorda: "Ela é muito apegada à sua identidade."
1964
Golpe militar
Quando os militares derrubaram João Goulart (Jango), em 31 de março de 1964, a vida de Serra já estava bastante mudada. E ameaçada. Desde 1962, era membro destacado da Juventude Universitária Católica. No mesmo ano tinha sido escolhido como presidente da União Estadual dos Estudantes (UEE) e, no ano seguinte, da União Nacional dos Estudantes (UNE). Tinha também formado a Ação Popular, outro agrupamento católico de esquerda, inspirado em pensadores como Teilhard de Chardin e ao lado de nomes como Betinho. A ascensão de Serra como líder estudantil era tal que, no famoso comício de Jango em louvor a Getúlio Vargas, em 1963, Serra foi convidado a discursar antes do presidente - e ainda o criticou por querer intervir em administrações estaduais. "Serra gosta de provocar, de polemizar", conta Gilda Portugal Gouveia, sua amiga e hoje funcionária da Secretaria de Educação. "Ele deixa os assessores aflitos com perguntas, até poder chegar a uma decisão."
Jango, na ocasião, teria dito a Serra que "havia generais loucos" atrás do jovem rebelde, que já era fichado pelo Dops, o "departamento de ordem" criado justamente por Getúlio durante o Estado Novo. No ano seguinte, em outro comício, em 13 de março, ele novamente discursou antes do presidente e defendeu suas reformas de base, como a agrária. Dado o golpe, duas semanas depois, Serra procurou abrigo na casa de Tenório Cavalcanti, o "homem da capa preta", e depois na Embaixada da Bolívia, até que teve de sair do País. Foi para Bolívia e França, voltou clandestinamente em 1965 e se escondeu na casa da atriz Beatriz Segall. Mas foi preso durante uma reunião e decidiu se exilar no Chile, assim como Betinho, Fernando Gabeira e Almino Afonso. Ali retomou os estudos acadêmicos, mas trocando a Engenharia pela Economia.
Dilma também tinha mudado muito. Era estudante do Colégio Estadual Central, onde participava de movimentos estudantis, e ingressou na Política Operária (Polop), onde conheceu José Aníbal, hoje do PSDB e coordenador da campanha de Geraldo Alckmin ao governo paulista. "Ela me apoiou em eleições, éramos da mesma turma política", conta Aníbal. "Era inteligente, um pouco cabeça-dura, mas repensava as coisas, trabalhava os assuntos, tinha grande capacidade de concentração." Em pouco tempo, o movimento se dividiria entre duas linhas, a dos que queriam o socialismo por via democrática e a dos que o defendiam pela luta armada.
Marina, a essa altura, ainda é uma criança, muito distante das tertúlias políticas e muito próxima das mazelas nacionais. Acompanhava o pai até o trabalho nos seringais, sofria com sarampo, malária e leishmaniose, não ia à escola. O pai a ensinou a fazer contas, mas Marina só seria alfabetizada aos 16 anos, depois de trocar a floresta pela cidade.
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