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Velhas estrelas caem e Dilma fura fila no PT

Destino da escolhida de Lula para sucedê-lo foi selado em 2002, quando ele desfez acordo com PMDB para dar a ela a pasta de Minas e Energia

04 de junho de 2010 | 11h 19
Vera Rosa, de O Estado de S.Paulo (Texto originalmente publicado em 21/02/2010)

BRASÍLIA - A mulher escolhida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva como sua herdeira política atravessou o caminho do PMDB, que hoje tenta conquistar, na transição de governo, em 2002. Foi no fim daquele ano que Lula, então presidente eleito, desfez um acordo para dar ao PMDB o Ministério de Minas e Energia, entre outros cargos, e anunciou que o comando da pasta ficaria com Dilma Vana Rousseff.

Estava selado ali o destino da ex-guerrilheira que encantou Lula, furou a fila do PT na disputa pela cadeira do chefe e, anos depois, viu personagens da mesma história se cruzarem na cena política. Em 2005, Dilma substituiu José Dirceu na Casa Civil e, na cerimônia de transmissão do cargo, foi chamada por ele de "companheira de armas e de Lutas".

Abatido pelo escândalo do mensalão, Dirceu foi o homem que, na direção do PT, fechou o acordo com o presidente do PMDB, Michel Temer (SP), para entregar ministérios ao partido em troca do apoio ao novo governo. Temer é o deputado que estranhou a entrada de Dilma na vaga prometida ao PMDB e hoje é cotado para dividir com ela, na condição de vice, a chapa abençoada por Lula ao Palácio do Planalto.

Cristã nova no PT, desconhecida no próprio partido e sem nunca ter enfrentado uma eleição nem quando estava no PDT de Leonel Brizola, Dilma desbancou petistas históricos dizimados por uma sucessão de escândalos, como Dirceu e o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci.

Nunca teve jogo de cintura política - tanto que ganhou um "bambolê" do PMDB -, mas não fez sombra para Lula. Com essa credencial, ela hoje se prepara para representar o PT na primeira eleição disputada pelo partido sem Lula na cédula justamente com a ajuda de Dirceu e de Palocci, o ministro com quem teve ruidosos embates no governo por causa do superávit primário.

Mesmo sem força para se contrapor à vontade de Lula, o PT chegou a esboçar resistência a uma candidatura que não passou pelo crivo do partido, mas acabou se rendendo. Dilma se aproximou do PT em meados do ano passado, após enfrentar um câncer no sistema linfático. "Muita gente diz que ela é dura, mas, numa negociação, tem que ser assim mesmo", ameniza Lula. "Logo que eu ganhei a primeira eleição, em 2002, avisei aos companheiros que Minas e Energia não ia entrar na negociação partidária com o PMDB porque eu tinha encontrado a ministra ideal. Daí para a Dilma passar à Casa Civil foi uma coisa natural."

Filha de pai búlgaro e mãe mineira, Dilma faz o estilo "gerentona": é implacável com os subordinados, cobra prazos e resultados e quer tudo pronto para ontem. "O presidente não dá bronca em ninguém. Ele fala para a Dilminha. Aí ela vai lá e resolve", conta o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, que chama a chefe da Casa Civil pelo apelido de infância.

SINAIS DE ALERTA

Aos 62 anos, Dilma está acostumada a cuidar de um cardápio variado de assuntos, da banda larga aos temas econômicos, passando por licenças ambientais. Há poucos dias chegou à sua mesa um relatório com "sinais de alerta" do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Dizia que a "implementação" do plano está "problemática", pois recursos disponibilizados têm sobrado. Desembarcam em seu gabinete, ainda, pedidos de governadores, ávidos por resolver pendências com a União. "O Serra me liga e me dá tarefas", confidencia Dilma, rindo, numa referência ao governador de São Paulo, José Serra (PSDB), provável adversário do PT na corrida ao Planalto.

"Eu o conheço há 30 anos e temos a melhor relação." Quando Dilma era militante de uma organização de extrema-esquerda chamada Colina (Comando de Libertação Nacional), em Belo Horizonte, o hoje deputado José Aníbal (PSDB-SP) também conviveu com a garota que amava os Beatles, a música clássica, os livros e os filmes de Glauber Rocha. "Ela sempre foi inteligente, mas está contaminada pelo PT", avalia o tucano.

Lula quebrou o protocolo político na divisão de seu espólio, jogou o PT para escanteio e ignorou o mosaico ideológico das tendências abrigadas no partido fundado por ele há 30 anos. Além disso, convencido de que é possível eleger a primeira mulher presidente do Brasil, escalou um time de sua confiança para cuidar da campanha e moldá-la como candidata.

"O presidente acha que carisma e contato com o povo se constroem e ouso dizer que ele a escolheria mesmo que Dirceu e Palocci estivessem no governo. Para ele, é muito importante o fato de Dilma não ter projeto político pessoal, porque percebeu o quanto as ambições criam problemas", constata Gilberto Carvalho, chefe de gabinete de Lula.



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