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Policia civil faz mega operação contra tráfico em Guararapes-SP

Chico Siqueira, de O Estado de S. Paulo

24 Março 2010 | 14h 06

Foram cumpridos 47 mandados de prisão e 53 de busca e apreensão; 23 pessoas foram presas

A Polícia Civil deslocou nesta quarta-feira, 24, um grande aparato para prender pequenos traficantes ligados aos Primeiro Comando da Capital (PCC), na cidadezinha de Guararapes, 27 mil habitantes, a 560 km de São Paulo. A mega-blitz, chamada de Operação Babilônia, mobilizou 200 homens (170 da Civil e 30 da PM), um helicóptero trazido de São Paulo e cães farejadores. A movimentação despertou os moradores às seis da manhã. "Estamos assustados, nunca vimos isso aqui, tomara que dê resultado", disse o comerciante José Roberto Dias, dono de um bar assaltado duas vezes.

 

Batizada de Babilônia, a operação cumpriu 47 mandados de prisão temporária de 30 dias e 53 de busca e apreensão. Vinte e três pessoas (na maioria, jovens de 18 a 25 anos) foram presas, acusadas de integrar nove quadrilhas de pequenos traficantes que agiam na cidadezinha. Foram apreendidos três carros e uma motocicleta, um cofre, objetos produtos de furto e apenas uma porção de maconha.

 

Os presos foram levados à delegacia, cujas ruas próximas foram interditadas para evitar que curiosos atrapalhassem o trabalho dos policiais. Todas as salas do prédio foram ocupadas por delegados que elaboravam os autos de prisão e apreensão. Desavisada, a secretária Patrícia Pereira, 23 anos, que tinha ido à delegacia reclamar do furto de sua bicicleta, foi embora. "Amanhã eu volto, mas coloca aí: minha bike foi roubada por um menino de 13 anos para comprar crack", disse ela. "Você nem imagina como esta cidade ficou violenta", completou.

 

Além de Guararapes, 24 detentos tiveram prisões decretadas nas penitenciárias de Mirandópolis, Valparaíso e Lavínia, todas controladas pelo PCC. Segundo a polícia, de dentro desses presídios, por telefone celular, esses detentos encomendavam com grandes traficantes o repasse de drogas para as quadrilhas de Guararapes, que por sua vez, pagavam o chamado 'bicho papão' (comissão de até 20% sobre o lucro da venda da droga) para o PCC.

 

Um dos presos na blitz de Guararapes foi o agente penitenciário Fábio Henrique Moreira de Souza, que trabalha na Penitenciária de Valparaíso e dono de uma escola para concursos, no centro de Guararapes. Ele estava de licença médica por depressão havia dois meses, mas a polícia descobriu que, nesse tempo, ao invés de se tratar, ele traficava. Além de traficante, Souza, segundo a polícia, atuava como informante do PCC. Na hierarquia da facção, ele estaria a oito degraus acima dos pequenos traficantes da cidade. Ele foi preso logo de madrugada, assim que policiais o acordaram ao invadir o prédio da escola, onde ele dormia.

 

Uma advogada de Araçatuba, acusada de auxiliar traficantes de Guararapes e de guardar objetos roubados por eles, foi presa em flagrante depois que a polícia encontrou munições e um radiotransmissor sintonizado na frequência da polícia. Depois de pagar fiança ela foi liberada.

 

De acordo com o delegado Ely Vieira de Faria, da Seccional de Araçatuba, as prisões são consequência de um inquérito de 2,3 mil páginas aberto em 2009, que corre em segredo de Justiça, e de interceptações telefônicas feitas no decorrer de um ano. "Desde 2006 investigamos essas quadrilhas. A maior quadrilha tinha 13, mas a maioria possui cinco integrantes", diz Faria

 

ONDA DE VIOLÊNCIA

 

A explicação da Polícia Civil para justificar a mega-operação foi de que a cidade de Guararapes vive um grande aumento no número de roubos e furtos praticados por jovens para comprar drogas. Um exemplo pôde ser constatado pela reportagem em cem metros de uma quadra da rua Júlio Prestes, no centro da cidade, onde todas as oito casas foram assaltadas ou furtadas no segundo semestre do ano passado.

 

"Os adolescentes e jovens que hoje são usuários, amanhã serão os traficantes", diz o delegado Ely Vieira de Faria. Segundo ele, a maior parte dos líderes das nove quadrilhas entrou no tráfico antes dos 18 anos. "Esses traficantes de hoje eram adolescentes e usuários ontem", diz. Segundo Faria, além dos adultos presos, há pelo menos 15 adolescentes envolvidos com as nove quadrilhas desarticuladas nesta quarta-feira.

 

"Também aumentou a ocorrência de homicídios causados pelo tráfico e por disputas de pontos", completa. Para o delegado, a mega-operação também serve para evitar o aumento do número de usuários. "Se conseguirmos impedir que uma pessoa deixe de consumir droga ou morra por causa do tráfico, essa operação já terá valido a pena", diz. Para o delegado, a adesão de jovens ao tráfico se dá por falta de perspectivas na vida familiar, social e profissional. "Além disso, o jovem de hoje gosta de viver perigosamente e demonstrar poder", diz.

 

Notícia atualizada às 18h25.