Conheço bem Telmo Rodríguez, o produtor viajante espanhol que roda seu país procurando vinhedos esquecidos, recuperando estilos e atrevendo experiências.
Como só viaja de carro e não tem nada a ver com os consultores que atuam pelo mundo, pejorativamente chamados de flying winemakers, inventou para si o título "driving winemaker". Pois esse viajandão me pegou de surpresa com estes dois vinhos, um tinto de Mencía e um branco de Godello, chamados Gaba do Xil.
Numa prova de grandes tintos espanhóis, em que o Mencía entrou quase de gaiato enfrentando Prioratos, Riberas del Duero e Toros, fui conquistado pela fruta exuberante, facilidade de beber e tom amigável do líquido tinto. Um vinho fácil, direto, gostoso.
Como o rótulo não me dizia nada, fui ver do que se tratava. Uva Mencía, denominação de origem Valdeorras. Como? Mencía é a casta emblema do Bierzo, Valdeorras, quase desconhecida, fica na Galícia. Nada fazia muito sentido. Conhecemos a Galícia pelos Albariños, nunca por um tinto.
O Atlas Mundial do Vinho deu a pista. Valdeorras está na fronteira entre Bierzo e a Ribeira Sacra, onde a variedade autóctone Godello ressurge com destaque. O outro vinho Gaba do Xil é o branco dessa uva. A trama deixou de se adensar. Tudo fez sentido.
Confira a análise dos vinhos:
Gaba do Xil Mencía 07
Gaba do Xil Godello 08
Telmo Rodríguez, que reassumiu a vinícola familiar, a notável Granja Nuestra Señora de Remelluri, na Rioja Alavesa, descobriu os solos montanhosos e graníticos, o clima sob forte influência marinha e completou seu mapa espanhol. Numa recente conversa, ele me disse que sua busca é pela fluidez e facilidade de beber dos vinhos, e não por grandes complexidades e dificuldade. Os dois vinhos de Valdeorras, em especial o tinto, funcionam como bem-sucedida defesa dessa tese.
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