Estava editando o Link quando a Janaina chegou cheia de dedos. "Er...", começou, "Matias, estou fazendo uma matéria sobre coffee geeks e queria saber a diferença entre um geek e um nerd..." Olhei torto.
Calma, Janaina: o olhar torto não foi para você, mas para toda essa discussão, que não é um tema polêmico apenas na redação do Link. A diferença entre os dois termos é uma longa discussão entre diferentes setores do mundo pop e digital.
"Nerd" e "geek" são termos em inglês que, originalmente, funcionavam como xingamento. Designam pessoas deslocadas do convívio social ou com algum problema físico ou mental, mas, a partir da década de 70, "nerd" passou a ser utilizado para se referir a adolescentes sem vida social e com interesses específicos em temas impenetráveis para a maioria, seja computação, ficção científica ou brinquedos antigos.
Mas se o termo era motivo de riso e pirraça, aos poucos ele foi sendo abraçado pelos mesmos sujeitos que eram rechaçados por ele. E à medida em que os anos 80 passavam, surgiu o "orgulho nerd" - Bill Gates e Steve Jobs sendo seus principais ícones. Ao mesmo tempo, conforme surgiram computadores, videogames e outras novidades digitais, apareceu um derivativo do nerd - o "geek". Que, na prática, é um nerd cujo principal interesse é tecnologia e aparelhos.
"Geeks" são o equivalente aos mecânicos do mundo digital. Gente disposta a abrir computadores, fuçar peças e comprar aparelhos apenas para testá-los - e não usá-los. Daí chamar os fanáticos por máquinas de café de "coffee geeks". Se chamássemos de "coffee nerds", estaríamos nos referindo a fanáticos por café - e não pelo equipamento. O geek é maníaco por hardware. O nerd é maluco pelo software - ou seja, qualquer coisa que rode na máquina: um programa, um vídeo, um blog ou arquivos de MP3.
No Link, optamos pelo nerd - rebatizamos, inclusive, a seção dedicada a explicações mais detalhadas para alguns assuntos como Personal Nerd. Fosse "Personal Geek", a seção só serviria para falar de máquinas e novidades tecnológicas. Mas, na cultura digital atual, em que todos usam o Google, todos estão no Facebook e no Twitter e quase todos têm blog ou conta no Flickr, o nerd deixou de se referir apenas aos indivíduos que se encaixam na descrição do jornalista Benjamin Nugent no livro American Nerd - The Story of My People (Scribner, 2008, importado): "Solidão, a natureza mecânica do trabalho na era pós-industrial, a forma como a modernidade permite que nosso corpo caia em desuso e a forma como a mídia de massa contemporânea convida as pessoas a relações voyeurísticas e as anestesia aos prazeres da vida real." O nerd deixou de ser isso. Pois, hoje em dia, somos todos nerds.
*ALEXANDRE MATIAS É EDITOR DO LINK
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