Primeiro um aviso: sei que usar a palavra espírito para os destilados é incomum em português, embora seja o jeito inglês de se referir a essas bebidas alambicadas. O dicionário permitiu; e acatei feliz. Então, começo aqui os Espíritos de Glupt!
Os single malts são o mais próximo do terroir que nossa língua pode perceber. É uma afirmação controversa, não tem raiz da videira nem clorofilia e madurez da uva no sol, mas se sente a turfa escocesa com intensidade ímpar. Laphroaig, da ilha de Islay, é quase uma hipérbole do solo engarrafado, de tão potente. Já o conhecia de fama, único uísque a trazer a chancela real do príncipe de Gales estampada no rótulo e famoso pelo "estilo gaita de fole", que se ama ou detesta. Sem opções.
Comprei uma garrafa no Duty Free de Guarulhos e fui abri-la no hotel em Buenos Aires, numa viagem recente. Foi uma epifania aromática. Tirei a tampa e instintivamente olhei para o teto, com medo de disparar o alarme de incêndio. Não estou exagerando. O primeiro gole foi pavoroso, como me advertia o nariz: fumaça, iodo, algo de esparadrapo e medicinal, como lamber um cinzeiro ou beber um charuto guardado num armário de farmácia. É atraente essa descrição? Nem um pouco. Meia hora depois o gosto ainda estava na boca, só que ficara agradável, salino, marinho e defumado, pedindo mais goles.
A nova prova sumiu com qualquer estranheza. Provei uma dezena de single malts nos dois últimos meses. Gostei da amabilidade quase vinífera dos Glenmorangies, com seu estágio em diferentes tonéis usados para Jerez, Porto ou Sauternes. Apreciei o toque mais clássico do Jura, o cítrico do Glenfiddich e tive prazer com os também defumados Talisker, Caol Ila e Macallan.
Meu paladar continuou fiel ao Laphroaig. É explicável que Sua Alteza o príncipe Charles tenha ido comemorar seus 60 anos na destilaria. Foi pilotando o próprio avião, errou e aterrissou de bico na turfa. Quase não chega a rei por amor ao Laphroaig.
ONDE COMPRAR
Laphroaig e Talisker são encontrados no Brasil, atualmente, nas lojas Duty Free dos aeroportos, por US$ 48 e US$ 53. Os Glenmorangies podem ser comprados no Rei dos Whiskys (tel. 3488-2199) por R$ 210 (Original) e R$ 267 (Nectar D’Or)
*** Estilo Glupt! de beber uísque
Parecerá esnobismo. Não sou esnobe, não em demasia, acho. Mas inventei um sistema de beber uísque (nada é inventado de verdade e logo aparecerá alguém que já fez isso antes. Meu minuto de alegria durará exatamente 60 segundos). Para degustar, os especialistas aconselham a bebida pura. Obedeci. Mas para beber aceitam, e até estimulam, ligeira diluição com água.
Confirmam o que escreveu Harold McGee num artigo publicado pelo Paladar: um pouco de água libera mais aromas em todas as bebidas. A água de que mais gostei, entre cerca de uma dúzia que provei, foi a Evian. A explicação foi dada por Jeffrey Steingarten: a Evian é a mais próxima da saliva em salinidade e parece neutra na língua. Além de ser um pouco redonda, como se tivesse glicerina. Coloco um dedo de água para gelar no copinho.
Quando está um gelo bem sólido, coloco igual quantidade de bebida. O uísque se resfria, sem ficar gelado, e o gelo derrete lentamente, de modo muito mais paulatino que o clássico on the rocks. O resultado é uma bebida fria e sem diluição. Estou me sentindo o máximo por isso.