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Luiz Horta - blogs.estadao.com.br/luiz-horta

Vinho é geografia, de vez em quando é política também. O exemplo mais evidente é a história recente dos extraordinários vinhos da região de Tokaj, no nordeste da Hungria, fronteira com a Ucrânia.

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Durante o período soviético, as vinícolas foram estatizadas. Os líquidos dourados, que rivalizavam com os Sauternes no gosto mais fino, começaram um longo declínio. Algumas garrafas continham uma coisa doce tão fraudulenta quanto mel comprado na beira de estrada: eram caldas de açúcar sem traço de uva e menos ainda da botrítis, o fungo que ataca os bagos e dá as características de tais vinhos.

A catástrofe afetou toda a região sob influência da União Soviética; sumiram os famosos Pinots do Lago Balaton, os distintos vinhos da Bulgária, os bons vinhos eslovenos e georgianos e outras tantas coisas, como inúmeras uvas autóctones dos Bálcãs que quase foram extintas. Tudo vai sendo recuperado e reconhecido agora, aos poucos.

A Royal Tokaji foi uma exceção. Antes mesmo da perestroika, um grupo de ingleses conseguiu formar uma joint venture com um grupo estatal húngaro. Um dos ingleses era, simplesmente, Hugh Johnson, grande nome da crítica de vinhos britânica, criador do Atlas Mundial do Vinho e de respeitados guias, autor da indispensável história da bebida (A História do Vinho) e de memórias divertidas (um dos melhores livros sobre vinhos que já li, A life uncorked, "uma vida desarrolhada"). Há um capítulo dessas memórias justamente sobre a aventura húngara. E o resultado são os vinhos ao lado.

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