Gosto muito de propor um enigma, um dos meus jogos de salão favoritos. Quando a conversa vai arrefecendo em jantares, faço a pergunta, infalível reanimadora de bate-papo descompromissado: o que o jazzman Oscar Peterson, o Prêmio Nobel de Literatura Saul Bellow, o ator Donald Sutherland e o maior intérprete de Bach que já existiu, o pianista Glenn Gould, têm em comum? Depois de um silêncio de suspense, respondo: são canadenses.
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Usei o mesmo truque na pegadinha que preguei nos amigos enófilos. Ampliei a brincadeira: apresentei três taças, uma de tinto, uma de branco e uma de doce. Perguntei que uvas eram e de que país vinham os vinhos.
As uvas foram fáceis de adivinhar, os vinhos eram muito típicos no nariz. O Riesling matado de cara, o Pinot, com muito morango no aroma, deu a pista, um Pinot Noir de Novo Mundo. O icewine foi o prêmio pelos acertos, Riesling evidente, apenas houve titubeio no processo, alguns disseram botritizado alemão ou alsaciano, outros foram de colheita tardia austríaco. Gente bem esperta, mas ninguém acertou que eram do Canadá.
O país ficou conhecido pelos vinhos do gelo, os icewines, produzidos com as uvas congeladas, mas sempre de variedades híbridas, como a Vidal. Um icewine canadense feito de Riesling é algo impossível de adivinhar, nem com o mais alto índice de chute sendo usado.
A Cave Spring foi fundada há menos de 100 anos por imigrantes italianos, a história parecida com a da nossa vinicultura. Incapazes de plantar suas castas favoritas, italianas, partiram para o que era tradição na região, plantaram Vidal, híbrida francesa.
Mas a frustração ficou. Pelo clima frio e pluviometria semelhante ao norte da Europa continental, viram que podiam arriscar algumas brancas europeias no sul da província de Ontário. E vieram também Chardonnay e Riesling, muito bem adaptadas, com qualidade nas margens calcárias do lago Ontário, na região da península do Niagara, que vem estampada nos rótulos, como denominação de origem. É a fronteira lacustre com os Estados Unidos.
O Riesling é especialmente característico, tem a cortante presença na boca dos alemães, embora a acidez seja mais alta e a secura definitiva.
Quando a própria Alemanha tem dificuldade de produzir vinhos secos absolutos, os trocken, pelo excesso de calor dos últimos anos, o Riesling Cave Spring é a solução, seco como um osso, tradução literal do bone dry do rótulo, um alemão que nem na Alemanha tem.
Todos os vinhos provados são VQA, Vintners Quality Alliance, uma espécie de certificação de pureza e qualidade dada pela entidade reguladora dos vinhos do Canadá.