Por várias vezes o Institut National des Appellations d’Origine de Bordeaux se recusou a conceder o selo de origem à safra 2005 do côtes de francs Château Le Puy. A crer nos degustadores do Inao, o vinho seria "frutado, herbáceo, vegetal". Parece mentira. Há anos os cinco cuvées produzidos pela família Amoreau são a delícia dos gourmands e têm lugar nas melhores mesas do mundo.
Mas de tanto beber vinhos turbinados a golpes de química os degustadores do Inao encontram um sabor "vegetal" nos vinhos produzidos sem cosméticos enológicos. Cinquenta quilômetros a nordeste de Bordeaux, na margem direita do Gironde, Jean-Pierre Amoreau, hoje respaldado pelo filho Pascal, cultiva seus 25 hectares de uva Merlot, Cabernet-Sauvignon e Carménère sem aditivos.
As seis pessoas que trabalham no domaine lavram alguns lotes a cavalo e colhem a uva bem madura. Mas o pessoal do Inao não quer entender isso. O vinicultor me mandou uma cópia da carta em que o órgão se recusa a dar a autorização a 5 mil litros da safra 2005 do côtes de francs Château Le Puy: "O vinho objeto da presente decisão pode ser comercializado como vinho de mesa." Dá para imaginar a catástrofe econômica que isso representou para Jean-Pierre e Pascal Amoreau. Quem vai querer um Bordeaux qualificado como vinho de mesa, mesmo com alguns excêntricos como eu certificando que ele é o melhor?
Até hoje essa farsa burocrática não foi resolvida. O consolo para a família Amoreau vem do Oriente. Graças aos quadrinhos do Gotas de Deus, um mangá sobre vinhos escrito por Tadashi Agi e desenhado por Shu Okimoto, o Château Le Puy virou o vinho mais procurado do Japão. Na história, em 21 episódios, os dois herdeiros de um célebre enólogo japonês têm de resolver 12 enigmas sobre 12 vinhos antes de chegar a um 13º, o Gotas de Deus. E qual é esse misterioso 13º vinho, o mais extraordinário que o finado enólogo teve oportunidade de beber? Pois é o Château Le Puy 2003!
Pode-se ver o dedo de Deus por trás desse veredicto, mas também um julgamento perfeitamente justo. Essa safra magnífica tinha boca texturada, complexa, com aromas de ameixa e framboesa e notas de especiarias. E todos os vinhos do Château Le Puy têm caráter, mesmo os da safra 2005, da qual é preciso saber apreciar a fruta, a vivacidade, a generosidade e a mineralidade.
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