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Luiz Horta

O Canadá parece remoto e desconhecido, espécie de Estados Unidos mais arrumadinho e sem graça. Entretanto, muita gente que conhecemos e admiramos é canadense. O escritor Saul Bellow; o jazzman Oscar Peterson; o cantor Leonard Cohen; o ator Donald Sutherland e o maior intérprete de Bach, o pianista Glenn Gould.

Certamente o mais inesperado é saber que o país, obscurecido pelo vizinho do sul, produz vinhos, e muito bons. O clima frio canadense favorece variedades brancas mais do norte europeu, como Riesling. Além de lá ser permitido produzir vinhos com uma variedade híbrida, a uva francesa Vidal.

O notável são seus ice wines, essa complicada atividade de fazer vinhos com uvas congeladas. A única garrafa provada nesta edição das Viagens Engarrafadas e, aparentemente, o singular vinho canadense a ser importado para o Brasil, é justamente um deles, feito de Riesling.

Apesar da pequena produção e da quase irrelevância estatística para o mundo vinícola, o Canadá tem legislação rigorosa para os ice wines, que permite estampar na garrafa o selo VQA (Vintners Quality Alliance), controle de qualidade equivalente a uma AOC da França. É preciso colher a uva a 8 graus negativos, o açúcar residual tem que ser no mínimo 125g por litro e a adição de açúcar é totalmente proibida.

Vinhos do gelo são mais comuns e famosos na Alemanha e na Áustria, os caros e disputados Eisweins. É uma atividade de perigo. As uvas precisam estar congeladas, dependendo da gentileza da natureza, e ser prensadas assim, pois os gelinhos, formados por água retirada dos bagos, ficam na prensa, o que concentra o suco das uvas desidratadas e permite os melífluos vinhos.

Tal rigor não impede iconoclastas, como o californiano Randall Grahm, da Bonny Doon Vineyard, de usarem outros meios. Grahm congelou as uvas num frigorífico. Puristas torceram o nariz. Bebedores se regozijaram com o resultado.

Moderna harmonia

Desta vez, vou sugerir algo mais que comida para combinar com o vinho. Como todo vinho doce, o ice wine acompanha bem sobremesas. Mas por ter acentuada acidez da Riesling, um contraponto que o torna ainda mais saboroso, ganha possibilidades maiores de harmonização. É possível ousar um encontro com foie gras com figos, por exemplo, ou uma terrine de foie. Se alguém quiser bancar o grande transgressor de regras, um cálice do vinho com um lombo de porco em molho adocicado, como um que leve ameixas pretas pode ser um momento que faça aquele raro plim mágico da perfeição.

Sem riscos, sem atrevimentos, andando pelos caminhos mais seguros do clássico, sua melhor companhia será uma tarte tatin - e quanto mais ácida a fruta, maçãs ou peras, melhor vai ser o casamento com o vinho. Finalmente, ele é um vinho de reflexão, ou seja, pode ser bebido sozinho, sem mais nada, apenas sorvido na sua intensa complexidade, ouvindo as Variações Goldberg BWV 988 de Bach, numa versão de Glenn Gould, claro. Quer saber? Una tudo. Beba o vinho com a tarte tatin enquanto ouve a versão de 1955 das Goldberg. Fechou!


ONDE COMPRAR

Casa Flora
Informações: 3327-5199
Garrafa de 375 ml. R$ 234

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