Cuidado - As árvores nativas da Mata Atlântica é que fornecem a sombra necessária ao bom crescimento do cacau. Foto: Mary Melgaço/AE
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Desde que chegou ao sul da Bahia, em 1756, o cacau encontrou o microclima ideal: à sombra da Mata Atlântica, frequentemente banhada por chuva. Até a década de 80, o cacau baiano era reconhecido como um dos melhores do mundo, com direito a classificação especial na Bolsa de Valores de Nova York para os grãos ultrasselecionados.
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Inspirou uma série de livros do escritor Jorge Amado, entre eles Cacau (1933), Terras do Sem Fim (1942) e São Jorge dos Ilhéus (1944). O principal cronista da região não exagerou quando afirmou que o ouro que nascia nas terras de lá vinha da árvore de cacau.
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O Brasil, que até a década de 80 era o segundo maior exportador de cacau do mundo, despencou repentinamente no ranking de produtores. Em 1989, a vassoura-de-bruxa, um fungo endêmico da região amazônica, começou a devastar as plantações nos arredores de Ilhéus. A ação do fungo Crinipellis perniciosa, rebatizado como Moniliophtera perniciosa, é rápida. Em questão de dias, o fruto enegrece e resseca. As amêndoas ficam negras e murchas como nozes esponjosas.
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Cinco anos após a infestação - comprovadamente uma sabotagem -, 45 milhões de cacaueiros (cerca de 80% de toda produção de Ilhéus) acabaram infectados. Fazendas foram abandonadas, milhares de pessoas ficaram desempregadas e a produção minguou.
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Cultivado entre árvores nativas da Mata Atlântica, que fornecem a sombra de que o cacau precisa, num sistema conhecido como cabruca, um terço da floresta cacaueira foi destruÃdo. Com ela, uma grande parcela da mata nativa, da área de preservação, foi cortada; e a madeira, vendida.
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Aos poucos, a região está se recuperando, mas a vassoura-de-bruxa não foi erradicada e ainda assombra. Produtores como Diego Badaró e João Tavares têm tido um papel determinante no renascimento de uma nova fase do cacau fino brasileiro. Ambos produzem cacau fino a partir de variedades como a forastero e a trinitário. Os melhores grãos de Tavares, separados e vendidos sob o selo Cacau Gourmet, abastecem a Nespresso e várias lojas do chocolatier belga Pierre Marcolini espalhadas pelo mundo.
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Para melhorar o processo de cultivo, os produtores trocam experiências entre si - eles se queixam da falta de apoio da Ceplac, a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira, órgão de pesquisa ligado ao Ministério da Agricultura.
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E melhorias, de fato, estão sendo feitas. Tavares criou um cocho de fermentação redondo, quase um ofurô, para aprimorar uma das etapas mais importantes do processo de produção. "O cocho tradicional, que é quadrado, não mantém a temperatura homogênea, assim a fermentação fica desigual", explica ele.
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Apesar de todos os esforços e das melhorias implantadas, a produção de cacau tem caÃdo na região. Muitos agricultores desistiram do cultivo, um paradoxo, já que o consumo de chocolate aumenta a cada ano. "Chocolate é um produto muito valorizado, mas o cacau não é", lamenta Badaró.
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O que se aproveita do cacau:
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POLPA
Parte essencial do processo de fermentação, é uma delÃcia in natura e em sucos
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MEL DE CACAU
A seiva retirada da polpa durante a colheita é o mel do cacau. Delicioso, é muito perecÃvel: dura 1 ou 2 dias apenas
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AMÊNDOAS
São revestidas pela polpa e precisam ser fermentadas, secas e torradas. Têm sabor potente de chocolate amargo depois de torradas