Valterci Santos/AE
Valterci Santos/AE

Agricultores, pecuaristas - e pós-graduados

Grupo em Curitiba adota estilo de vida baseado na produção de alimentos para consumo próprio e em sistema de trocas

16 Novembro 2011 | 18h33

Eles não são hippies, não vivem em comunidades nem são partidários do amor livre. Moram num bairro residencial de Curitiba, no Paraná, e trabalham fora - mas todos têm uma identidade secreta de bicho-grilo.

O professor de administração René é padeiro comunitário; o pedagogo Eduardo cuida da horta. O dentista Claudio, hoje professor, toma conta das galinhas, coelhos e cabras. Kátia é médica e trocou o doutorado pelo curso de corte e costura. Pedagoga, Débora é a mulher dos bolos. Mãe em tempo integral, Vanessa organiza a roda de costura. Giovana tem só 8 anos, mas está "sendo treinada para ser um adulto responsável": ajuda a cuidar de Oliver, de 1 ano, e da horta.

Há quase dois anos, os três casais de amigos decidiram mudar para a mesma rua e ter uma vida em comunidade. Cada um mora na sua casa, mas têm em comum a Casa da Videira, um experimento em andamento de como seria viver na cidade de maneira sustentável. É um espaço alugado de 300 m², em plena Curitiba, onde plantam e criam boa parte de seus alimentos. Uma "casinha como no tempo da vovó", com quintal. Usina biológica que transforma 3,5 t de resíduos orgânicos por mês em 3 t de comida por ano.

"Somos normais, tão escravos como todo mundo, mas decidimos desatar os pequenos nós. Se fôssemos um bando de bichos-grilos, seria facílimo entender. Só que somos um bando de profissionais pós-graduados", diz Claudio Oliver. "Comunidade é a palavra. Não é possível viver assim individualmente. Tentamos atuar num raio de 3 km da nossa casa, para comprar o que não produzimos e pegar lixo."

Pegar lixo? É. Claudio e a turma da videira têm uma kombi comunitária que usam para recolher restos orgânicos de 15 famílias amigas, aparas de grama dos vizinhos, borra de café de cafeterias do shopping e 80 kg de frutas, legumes e folhas desprezadas semanalmente no hortifruti.

"Parte disso vem em absoluto bom estado. Só que para cada gôndola com frutas fabulosas há outra com produtos em bom estado, mas sem valor de mercado só porque têm um apertão."

Frutas em boas condições são higienizadas e consumidas por eles, ou doadas a comunidades carentes. O restante alimenta os 20 coelhos, 4 cabras e 25 galinhas - Claudio também abate os animais. O esterco é compostado, e as minhocas depois alimentam as galinhas.

Hoje, 40% dos alimentos que consomem são de autoprodução: ovos, carne (galinha e coelho), leite (de cabra), hortaliças e frutas. Outros 40% são comprados na venda da esquina (arroz, feijão, óleo) - "e marcamos na caderneta, o melhor cartão de crédito que existe". Os 20% restantes provêm de trocas.

O leite fresco de toda manhã é produzido pelas duas vacas de d. Justina, caseira de um terreno vizinho. Dá o leite e em troca recebe frutas, pão e uma ração para os animais que eles fazem.

Como conciliam a vida de profissional liberal com a prática da agricultura e pecuária urbanas? "Não vemos TV. Só aí sobram três horas por dia. Como não precisamos de tanta grana, cortamos algumas horas de trabalho. E temos arranjos coletivos que nos permitem ter mais tempo."

Claudio refere-se aos almoços. Comem juntos todos os dias - cada dia um cozinha. "Não há como pensar em viver um outro estilo de vida achando que dá conta de tudo sozinho. Aqui somos completamente dependentes das relações humanas", diz o professor. "No fundo, não sei por que você está me entrevistando. Faço 50% do que nossas bisavós faziam. Fazer metade do que faziam hoje dá reportagem. Imagina se alguém iria entrevistá-las?"

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