Caçadores de cacau selvagem

Nas margens do caudaloso Purus, morada de tucunarés e mosquitos vorazes, esconde-se o cacaueiro nativo da Amazônia. Só olhos treinados o veem. Seus frutos, pequenos e saborosos, são a própria alma do chocolate

Cíntia Bertolino - DE CANACURI, AMAZONAS,

13 Abril 2011 | 16h12

Após escalar árvores de 25 m, coletor ainda tem de levar carga ao barco e remar

Procurar cacaueiros na floresta amazônica sem olhos treinados e um GPS interno - que só quem nasceu às margens de um grande rio e de uma floresta imensa tem - seria como tentar achar agulha num palheiro povoado por mosquitos enxeridos e formigas enormes.

Nada disso distrai Alisson Apurinã de seu trabalho. Há três anos, quando começa o mês de março, o jovem de origem indígena salta da cama ao nascer do sol, pega o barco e navega o Rio Purus em busca de cacaueiros nativos espalhados pela floresta do sul do Estado do Amazonas. Os cacaueiros, alguns muito antigos e altos, são parte do ecossistema e até pouco tempo davam frutos sem que ninguém se dispusesse a colhê-los. Por não terem sido plantados pelo homem, esses cacaueiros dão um fruto diferente, menor e de sabor mais forte que o das espécies cultivadas.

Menos amargo, o cacau selvagem, ou nativo, tem boa acidez e um gosto característico de chocolate. "Quando se pensa em chocolate, é isto aqui. Ele não é tão frutado, mas é a quintessência", diz o americano Frederick Schilling, um dos criadores do chocolate Amma em sociedade com o baiano Diego Badaró.

Achar os cacaueiros em meio às outras árvores não é tarefa fácil. Em março, quando tem início a coleta, que se estende até meados de maio, Apurinã começa a procurar os frutos às 7 da manhã. Chega de barco, ou canoa, à beira de um dos locais mapeados e, com quatro grandes sacos, saí à caça.

Alguns cacaueiros passam dos 25 m de altura - e aí não há podão que alcance. Só escalando a árvore, o que Apurinã faz com uma agilidade impressionante. Num dia bom, com os sacos transbordando, termina o expediente às 3 da tarde. E depois de colher ainda tem de levar a carga nas costas até o barco.

O trabalho seria mais fácil se a própria natureza não se encarregasse de impor obstáculos e brincar de esconde-esconde com os coletores. Os ribeirinhos explicam a equação muito conhecida entre eles: quando a coleta é boa numa região, no ano seguinte diminui consideravelmente. Essa lógica pode ser explicada de acordo com a região, o microclima e a idade das árvores. "Em 2009, deu muito cacau. Choveu tanto que o rio transbordou e inundou a floresta. A gente tinha de entrar de barco no meio das árvores para colher os frutos", diz Apurinã, ao comentar que a produção do ano passado foi menor.

Da Amazônia à Alemanha. Às margens do Purus há muito cacau. Mas os cacaueiros só nascem na varge, onde, de tempos em tempos, a terra é alagada. E não se iludam quanto às dimensões das margens. Na Amazônia tudo é amplificado: da nascente, na Serra da Contamana, no Peru, à foz, no Rio Solimões, são mais de 3.300 km. Os habitantes de 65 pequenas comunidades ribeirinhas coletam os frutos nativos ao longo de 1.000 km nas margens esquerda e direita do caudaloso e barrento Purus, morada de tucunarés, curuaçus, caracus, mandis, piramutabas e tantos outros peixes saborosos que nutrem os ribeirinhos.

A coleta começou a ser explorada comercialmente em 2005 pela Cooperativa Agroextrativista do Mapiá e Médio Purus (Cooperar, tel. 97/3453-5135), que desde então vende toda a produção a um comprador alemão.

Da floresta, o cacau vai de barco para um dos três locais de beneficiamento montados pela Cooperar ao longo do rio. Lá, as amêndoas são fermentadas e secas.

Em Canacuri, comunidade ribeirinha onde vivem 13 famílias e só se chega de barco, Jessivaldo Justino da Silva é o responsável pelo processamento. Revira as amêndoas oito vezes por dia para que sequem uniformemente. Vão para Boca do Acre e sacolejam num caminhão por quase uma semana até chegarem ao porto de Santos, onde viajam de navio para a Alemanha.

Tanto trabalho, segundo os especialistas, é compensado pela qualidade do fruto. "Eles estão fazendo um ótimo trabalho com o cacau. As amêndoas são lindas,limpas, sem pedaços de casca ou grãos duplos. São das melhores que já vi", diz Schilling.

"Ainda não tivemos lucro, mas esse trabalho representa um grande benefício para os ribeirinhos e para a floresta. Quando as pessoas descobrem que podem tirar a sobrevivência da mata, o desmatamento diminui", diz Jaime Passos Sass, da Cooperar.

***

Beneficiado, pode valer muito mais

A região do Médio Purus e do Rio Juruá ainda tem cacau nativo para ser coletado e tratado corretamente. Quem afirma é o consultor Alexandre Carvalho Lins, que trabalha com o Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) e conduz oficinas para produtores de cacau no Rio Madeira e Alto Solimões.

"A coleta nessas regiões tem potencial para produzir centenas de toneladas de cacau, mas o problema é que os produtores só secam as amêndoas para vender para a grande indústria", diz Lins, que também trabalha com o sindicato dos engenheiros do Acre para desenvolver uma barcaça desmontável de secagem de cacau.

"Na região amazônica é muito difícil conseguir financiamento para obras em razão da falta de documentação de terras, especialmente nos vilarejos ribeirinhos", explica Lins.

Aos poucos, e com a ajuda das oficinas de capacitação, a ideia é mostrar aos produtores como o cacau bem tratado, fermentado e seco corretamente atinge um valor muito mais alto no mercado. "No futuro, o objetivo é que cada região tenha a própria cooperativa", diz o consultor.

 

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