De nata ou de Belém, o pastel é o mesmo

Os milhares de turistas que todos os anos visitam o Mosteiro dos Jerônimos e a Torre de Belém, em Lisboa, habitualmente fazem pit stop na vizinha confeitaria Pastéis de Belém, fundada há 174 anos, para ali se deliciarem com o pastel homônimo. O volume é realmente gigantesco. Saem 20 mil Pastéis de Belém por dia. Como a confeitaria funciona a semana inteira, das 9 às 21 horas, são 7, 2 milhões por ano, a 0,95 (pouco mais de R$ 2) cada um. Portanto, rendem cerca de R$ 16,34 milhões.

Dias Lopes - O Estado de S. Paulo,

20 Abril 2011 | 17h11

O pastel de belém é um docinho assado no forno, em fôrmas de empada, tendo massa folhada no fundo e lados; no recheio vão gemas e nata (creme de leite), um pouco de farinha de trigo e casca ralada de limão. Seu nome é marca registrada, nenhuma outra confeitaria pode usá-lo.

O estabelecimento foi inaugurado em 1837 por um comerciante e um confeiteiro, na Rua de Belém, números 84 a 92, tel. 00/xx/351/213-637425. Os atuais donos, descendentes dos fundadores, afirmam preparar uma receita secreta, oriunda do Mosteiro dos Jerônimos. Com a dissolução das ordens religiosas em Portugal, decretada por d. Pedro IV (1798-1834), o d. Pedro I do Brasil, um dos monges a teria vendido à dupla. A fama da novidade se espalhou rápida.

Inicialmente, o confeiteiro trabalhava fechado na Oficina do Segredo. Era para ninguém aprender a misturar os ingredientes na quantidade certa. A Oficina do Segredo existe até hoje, mas agora pode ser observada através de uma janela de vidro.

A história não está bem contada. Dificilmente um monge teria ensinado uma receita de doce. Os religiosos portugueses eram proibidos de manusear o açúcar. D. João II (1455-1495) concedeu a exclusividade às religiosas que com ela criaram a doçaria conventual portuguesa.

Além disso, o pastel de belém nada mais é que o pastel de nata, veterano doce português. Virgilio Gomes, especialista em gastronomia histórica, acredita que a matriz da receita se encontre no Livro de Cozinha da Infanta d. Maria (Imprensa Nacional/Casa da Moeda, Lisboa, 1987), escrito no século 16. A autora, neta de d. Manuel I (1469-1521), o rei que descobriu o Brasil, chamou-o de pastel de leite. Ainda conforme Virgilio Gomes, o pastel de nata moderno foi aprimorado no Mosteiro de Odivelas, a 15 quilômetros de Lisboa, o mesmo no qual d. João V (1689-1750) escandalizou seus súditos mantendo um romance com Paula Teresa da Silva, a madre superiora, única amante que o dominou até a morte.

Só na capital lusitana há 300 confeitarias vendendo excelentes pastéis de nata. Virou o doce mais popular no país. É também o português mais famoso no mundo, apesar de ainda pouco difundido no Brasil. Inicialmente, o consumo se restringia aos lusitanos que viviam no exterior. Depois, abriu-se o leque. Nos Estados Unidos, primeiro país que o pastel de nata conquistou, o comerciante Manuel Teixeira fundou a Portuguese Baking Co., no final do século 20. Hoje, distribui sua enorme produção em New Jersey, Nova York e Pensilvânia.

Países como França e Luxemburgo também apreciam o doce. Na Inglaterra, tem como fã a rainha Elizabeth II. Na Ásia, o inglês Andrew Stow, ex-relações públicas do Hotel Hyatt, abriu em 1983 a padaria Lord Stow’s, de Macau. Em seguida, fundou a loja Andrew’s Coffee and Natas em Hong Kong. Entre 1999 e 2001, surgiram várias lojas Lord Stow’s Egg Tart nas Filipinas, Tailândia, Coreia do Sul e Japão.

No evento gastronômico Peixe em Lisboa 2011, o mais importante de Portugal, realizado entre os dias 7 e 17 de abril, elegeu-se o melhor pastel de nata de Portugal. Inscreveram-se diversas confeitarias nacionais. Venceu A Chique de Belém, da Rua Junqueira, 524, tel. 00/xx/351/213-637995, na capital. Localiza-se no mesmo bairro da confeitaria Pastéis de Belém, ausente do concurso. Pode ter preferido não arriscar a fama, pois existem pastéis de nata superiores aos seus, sobretudo "mais estaladiços ao dente", como exigem os experts. Para que essa característica se manifeste, o doce deve ser servido frio. A Pastéis de Belém o vende morno.

 

PASTÉIS DE NATA

Ingredientes

Massa folhada (compre pronta) quanto baste

8 gemas

500 ml de nata

2 colheres (chá) de farinha de trigo

200g de açúcar

1 casca de limão

Açúcar e canela em pó para polvilhar

Preparo

Estenda finamente a massa e corte-a em tiras.

Enrole cada uma das tiras de modo a obter rolos compridos. Corte os rolos em pedaços de 2cm a 3cm. Os pedaços ficarão como se fossem bolachas redondas.

Coloque cada pedaço de massa dentro de forminhas de empada e, com o dedo polegar levemente molhado em água, vá comprimindo a massa de maneira a forrar toda a forminha.

Para o creme, misture todos os ingredientes e leve ao fogo brando, mexendo, até levantar fervura. Retire, descarte a casca do limão e espere amornar.

Distribua o creme nas forminhas, sobre a massa e leve ao forno muito quente (230°C a 300°C) até a massa assar e o creme ficar bem dourado.

Sirva os pastéis polvilhados com açúcar e canela em pó.

Rendimento: cerca de 8 porções

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