ENTREVISTA - Autossuficiência na metrópole

ENTREVISTA - Autossuficiência na metrópole

Família transforma casa na Califórnia em sítio urbano onde produzem quase 3 t de comida para consumo

16 Novembro 2011 | 18h43

Jules Dervaes tinha tudo para seguir os passos do pai, um empresário da indústria petrolífera americana. Percebeu em tempo que viver de maneira simples o faria mais feliz.

Transformou uma casa comum em Pasadena, na Califórnia, num sítio urbano em que ele e três filhos cultivam mais de 400 tipos de vegetais, ervas e frutas e criam abelhas, patos, galinhas e cabras - em 362 m².

"No primeiro ano colhemos uma tonelada. Ainda assim sabia que podíamos fazer melhor, porque havíamos revolvido só a superfície do solo - pobre e sem minhocas. Queria desfazer minha dependência da sociedade e do supermercado", conta Jules Dervaes ao Paladar.

Foi na Nova Zelândia, nos anos 70, que Jules aprendeu a cuidar de hortas e animais e a cozinhar no forno a lenha. De volta aos EUA, mudou-se em 1984 para a Califórnia. Anos depois, quando o Estado enfrentou uma seca severa e as tarifas de água subiram, desistiu de gastar mais com a "ilusão verde" que era seu canteiro da calçada. A grama, que consome muita água, deu lugar a ervas comestíveis.

"Impulsionada pela frugalidade, essa medida drástica foi um fator importante para transformar uma casa comum num sítio extraordinário", diz Jules.

Quando soube dos experimentos para modificar geneticamente os alimentos, o americano radicalizou. Decidiu que conseguiria comida limpa do jeito mais tradicional: plantando seus próprios alimentos. "Foi o plano para pôr em prática o Urban Homestead: viver a vida no estilo de uma fazenda, mas sem toda a terra de uma fazenda."

Por que você decidiu cultivar seus próprios alimentos?

Eu era o filho mais velho de um empresário. Meu pai trabalhava para uma companhia de petróleo americana, a Chevron. Para mim, parecia que a sorte estava lançada para fazer minha vida seguindo os passos do meu pai. Trabalho manual nunca foi uma possibilidade, nunca havia sequer imaginado. Quando entrei na faculdade, em 1965, senti que estava caminhando para a vida no mundo profissional - como todo mundo que eu conhecia.

Casar, em 1970, trouxe novas responsabilidades e um senso de urgência sobre pensar o futuro a longo prazo - havia anos que eu me sentia inadequado para enfrentar todas as exigências da vida diária, resolver emergências sozinho.

À medida que o mundo passou por mudanças e turbulências nos anos 60 e 70, senti uma necessidade urgente de viver da maneira mais simples possível, em harmonia com a natureza, em contato com minhas mais básicas necessidades, de alimentação, água e moradia. Depois da Guerra do Vietnã, eu comecei a olhar para a estabilidade do "velho mundo" e para um lugar em que os valores familiares permaneciam inalterados. Foi com este desejo em mente que eu e minha mulher emigramos para uma pequena cidade de mineração de ouro na Nova Zelândia, em 1973.

Em menos de um acre de terra, comecei uma luta diária para aprender a viver deste novo jeito. Foi lá que eu logo aprendi sobre hortas, criação de animais de fazenda, beber água da chuva, cozinhar em fogão a lenha... Ao tomar um pequeno passo atrás do outro, superei a paralisia do estado de espírito de quem é da cidade e está perdido na mata.

Entretanto, nos 15 anos seguintes vivi um turbilhão de mudanças. Em 1975, eu e minha mulher voltamos para a Flórida depois do nascimento do nosso filho, onde estaríamos mais perto das nossas famílias. Lá na Flórida eu planejei aplicar minha experiência como granjeiro na minha nova casa - um lote rural de 10 acres - mas as circunstâncias me forçaram a fazer outra mudança em 1984. Desta vez, fui para Pasadena, Califórnia. Tinha vendido meus 10 acres de terra para mudar para um quinto de acre na metrópole da grande Los Angeles. Rodeado por concreto e asfalto, pessoas e carros, ansiei ir para "casa", para o campo de novo. Apesar de tudo, eu mantive minhas mãos no solo praticando jardinagem como um hobby e ensinei meus filhos a como viver de um jeito simples e autossuficiente.

No meio dos anos 90, o sul da Califórnia experimentou uma seca tão severa que as tarifas de água subiram pelo excesso de uso. Não queria pagar mais pela ilusão verde que era meu canteiro da calçada. Então fiz uma camada de seis polegadas de compostagem. A grama, que consome muita água, foi substituída por flores selvagens e ervas - e conforme fui ficando mais inteligente - por comestíveis, o estilo de paisagismo Dervaes. Esta medida drástica, impulsionada pela frugalidade, transformou-se em um fator importante para transformar minha casa comum em um sítio extraordinário.

Aí, no outono de 2000, reagi irritado ao saber que corporações de biotecnologia estavam empenhadas em modificar geneticamente os alimentos. Acreditando que tinha que fazer tudo o que pudesse para proteger minha família desse experimento insano, decidi que conseguiria comida limpa do jeito mais tradicional possível: cultivando meus próprios alimentos. Três das minhas crianças (hoje jovens adultos), Anaïs, Justin and Jordanne, aceitaram o desafio. Eu tinha força de vontade, raiva e teimosia para fazer as coisas do meu jeito e com minhas próprias mãos. Entretanto, havia uma coisa que eu achava que não tinha: terra.

Quanta comida pode ser cultivada em nosso lote na cidade? Era possível plantar no meio de Pasadena? Conseguiríamos produzir para sustentar toda a família? O plano para pôr em prática o que chamamos de Urban Homestead significava viver a vida no estilo de uma fazenda, mas sem toda a terra de uma fazenda. No começo, achava uma loucura; mas sabia que nós podíamos fazer uma coisa: plantar, plantar e plantar mais um pouco.

Foi surpreendente quando vimos que a colheita do primeiro ano passou de 1 tonelada. E ainda assim eu sabia que podíamos fazer melhor, porque havíamos apenas revolvido a superfície de nosso solo pobre e sem minhocas. Guiado pelo desejo de desfazer minha dependência da sociedade e do supermercado, o projeto Urban Homestead seguia a todo vapor.

O que você cultiva?

Mais de 400 variedades de vegetais, ervas e frutas crescem durante o ano. No jardim da frente ficam as árvores e as espécies perenes comestíveis. Nos fundos há mais de 50 canteiros de vegetais cujo cultivo alternamos ao longo do ano de acordo com a época. Há tomates, morangas, feijões, pimentas, folhas, maçãs, mirtilo, goiaba, morango, laranja e muitas ervas, entre outros.

Nós também desenvolvemos muitas "ferramentas" e práticas sustentáveis. Solo saudável é a coisa mais importante para o cultivo, então tenho um sistema extenso de compostagem para reabastecer nossos canteiros. Outros sistemas que complementam o projeto são fornos e aquecimento solares e um sistema de reuso de água, produção de biodiesel, ferramentas movidas a pedal, assim como abelhas, patos, galinhas, cabras e gatos.

Qual é o tamanho da sua propriedade?

Temos um lote de 810 m2 na área metropolitana de Pasadena, Califórnia (ao norte de Los Angeles). Excluindo a casa e outros espaços não cultiváveis, a área de cultivo é de 362 m2.

Então é possível cultivar sua comida num espaço pequeno e urbano...

Nós fomos abençoados por estar num clima razoavelmente temperado do sul da Califórnia, onde há atividade de colheita o ano todo. Mas ainda assim lutamos contra as variações de temperatura, e o clima tem mudado muito.

Acredito que todo mundo pode fazer algo com o que tem. Você só precisa aprender o comportamento do ambiente e sempre tentar melhorar. Quase sempre há uma maneira de melhorar seu espaço - mais do que você imagina em princípio. Sempre encorajo as pessoas a aprender práticas antigas e a pesquisar como as gerações pioneiras sobreviviam.

Você já tinha conhecimento em agronomia?

Herdei um conhecimento em jardinagem do meu pai, que apesar de ser um executivo, cultivava plantas ornamentais, não comestíveis, em Tampa, na Flórida. Mas quando chegou o momento de cultivar vegetais, tive de aprender muita coisa. Li livros, catálogos e fazia muitas perguntas a especialistas em mudas. Durante o tempo que passei na Nova Zelândia, virei um estudante. E ainda me sinto bastante assim - sempre aprendendo como fazer mais e melhor.

O que você produz dá apenas para o consumo familiar?

Primeiro queria apenas prover comida limpa para a minha família, mas com o sucesso do projeto veio a abundância. Nós compartilhamos de graça com amigos e familiares e também sobrevivemos "diretamente", suprindo nossa dieta com o que produzimos, e "indiretamente", vendendo o excedente da colheita a restaurantes e moradores de Pasadena para comprar o que não conseguimos produzir, como açúcar, arroz e farinha. Por isso digo que vivemos da terra.

Por que você prefere cultivar sua própria comida à comprá-la no supermercado?

Há muitas razões. Comida cultivada em casa é muito superior em sabor e nutrientes que aquela que vem do supermercado. Além disso, não é apenas mais saudável para você mas também para o ambiente, porque ajudam você a reduzir sua pegada ecológica.

Como é a rotina da família Dervaes?

Vivemos a vida de uma família de agricultores. Não existe um dia baseado em horas específicas. O dia "no campo" começa quando o sol nasce e acaba no pôr do sol, mas às vezes pode se alongar. Cada membro da família assume uma tarefa diária que envolve cuidar da plantação e dos animais. Descansamos um dia na semana, o shabat. Às vezes é difícil, mas nada é mais compensador do que trabalhar com a natureza.

Em quem se inspirou?

Nas gerações anteriores de pioneiros. Admiro as pessoas que foram capazes de construir coisas e permaneceram tão obstinadas quanto os desbravadores. Grupos como os amishs e os menonitas, que vivem da terra trabalhada com as mãos. No início dos anos 70 surgiu nos Estados Unidos o movimento "volta à terra" - e também livros de visionários como Rachel Carson, Wendell Berry e Helen e Scott Nearing.

Você conhece outros que produzem para o próprio consumo?

Há cada vez mais gente. Sabemos deles por meio de nossa rede de sites e da troca de informações a distância. Mas a meta de produzir a maior parte do que precisamos é um desafio.

Que dica daria àqueles que querem ter um projeto assim?

Quando comecei o projeto Urban Homestead não tinha modelos bem-sucedidos para copiar. Tudo que eu tinha em mente eram as grandes fazendas e sítios. Transportar esses modelos para meu reduzido espaço custou muito trabalho físico e mental. Nosso sucesso veio do antigo exemplo da tentativa e erro, e muito suor. Deixei de lado a ideia de procurar parceiros e lugares ideais. Preferi me concentrar no que tinha no próprio quintal. Minha dica mais importante é começar imediatamente a plantar vegetais de cultivo simples, em qualquer espaço disponível. Sempre dá algum resultado e isso motiva a plantar de novo e de novo. Com um pequeno passo, lancei-me numa viagem solitária. Determinado a desenvolver a capacidade intelectual, a habilidade e a força necessárias para cuidar de minha família, comecei a etapa seguinte. Um ponto básico para a transformação gradual de uma propriedade estéril em um oásis fértil é a experimentação. Não encontrei nos livros nem na internet as respostas que procurava. Meu projeto era território desconhecido, a ser desbravado por tentativa e erro. Recomeçar a cada ano, partindo dos fracassos anteriores, tornou-se para mim um ritual que cumpria - frustrado e dolorido, mas de pé.

Por que você acha que hoje as pessoas da cidade estão começando a considerar essa ideia?

Nestes tempos de ansiedade, as pessoas estão descobrindo que, para sobreviver, precisam ser livres. O mundo de hoje - que, tragicamente, meus filhos vão herdar - é mais violento e ameaçador. Vivendo egoisticamente, caminhamos perigosamente à beira de um cataclismo global. São os velhos princípios que funcionam - e seria tolice não usarmos antigas habilidades para nossa futura sobrevivência.

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