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A chegada da cavalaria

Forças Armadas são chamadas para intervir contra o tráfico no Rio. Das outras vezes houve problemas e a situação ficou a mesma

27 de novembro de 2010 | 16h 43
GUARACY MINGARDI

 A disputa, que já dura duas décadas, entre traficantes e polícia no Rio de Janeiro esquentou novamente. A TV mostra os lances mais emocionantes e a população assiste a tudo ao vivo. Veículos queimados, tiroteios, ataques a postos policiais e, como cereja do bolo, a invasão da Vila Cruzeiro, um bunker dos traficantes, feita pela polícia e blindados dos fuzileiros navais.

O início dos eventos se deve, segundo a Secretaria de Segurança do Rio, à pressão exercida sobre os traficantes, que estariam perdendo território para as UPPs. Para pressionar o governo, partiram para o asfalto, realizando arrastões e queimando ônibus e carros particulares.

Esse é um resumo dos fatos, mas, como toda exposição apenas factual, não permite compreender o que ocorre e, principalmente, prever suas consequências.

A primeira coisa a considerar são os resultados do ataque à Vila Cruzeiro. Foi uma ação bem-sucedida, pois ocupou um território sob domínio do tráfico, mas houve uma falha que pode complicar o dia seguinte. Por falta de efetivo, logística ou planejamento, foi deixada uma rota de fuga aos traficantes, que migraram, com a maior parte de seu armamento, para o Complexo do Alemão. Em termos estratégicos, o comando policial não seguiu as lições de Clausewitz, o grande teórico da guerra, que prega dividir as forças inimigas e cercar cada grupamento, forçando a rendição. Fizeram o oposto: agruparam os opositores. No médio prazo isso significa que o Estado vai ter de empregar um efetivo ainda maior para tomar o próximo objetivo.

E de onde vêm esses reforços? Do Exército, novamente chamado para intervir contra o tráfico no Rio de Janeiro. Se a memória não me falha, em todas as outras vezes ocorreram problemas e a situação continuou a mesma. Há o caso do tenente que entregou garotos de uma facção para os rivais, que os torturaram e assassinaram. Também existem relatos de tortura, feita pelos próprios militares, durante a chamada Operação Rio. Essa operação, em que atuaram milhares de soldados, foi apelidada por traficantes de Operação Espanador: só fez o “pó” mudar de lugar. Os militares ocupavam um morro, os traficantes saíam, vendiam em outro local e voltavam quando a ocupação terminava.

Esse, porém, não é o grande problema. O Exército aprendeu com os erros do passado (espero) e a segurança carioca está disposta a manter os locais resgatados do tráfico, utilizando as UPPs. Isso levanta uma questão interessante. Até onde vai o fôlego da PM carioca para criar e manter mais unidades pacificadoras? Para cada uma delas precisa buscar novos efetivos, e com uma característica especial – a capacidade de manter bom relacionamento com a população. Na prática, uma UPP tem as mesmas características do policiamento comunitário. A grande diferença é que no Rio as regiões primeiro precisam ser ocupadas por forças de combate para depois serem alocados os policiais “bonzinhos”. Outra questão relativa à UPP, que o secretário Beltrame já mencionou, é que seu principal objetivo é manter o controle da área pelo Estado, não combater o tráfico, que muitas vezes continua na comunidade ocupada, de forma mais discreta.

Quanto aos que fugiram e se acoitaram no Alemão, estão se sentindo cada vez mais acuados, o que pode resultar em duas situações bem distintas. A mais favorável à segurança da população carioca é que o desânimo e o medo se instalem e aos poucos os traficantes abandonem as armas e se misturem à população comum. Isso é provável que ocorra com os mais jovens e menos aguerridos. A segunda opção é muito mais complexa, pois envolve a ideia de que “agora não tenho mais nada a perder”. Encurralados, podem ficar cada vez mais perigosos. É como tirar um gato de baixo da cama. Você tem de dar uma escapatória para o bichano, senão ele vai se assustar cada vez mais e arranhar, buscando uma saída. Essa saída pode vitimar mais ainda a população refém dessa guerra urbana.

E isso levaria o governo a adotar uma atitude que deve ser evitada – militarizar cada vez mais uma atividade puramente policial. Essa tendência ficou clara após o governador recusar ajuda da Força Nacional, composta de policiais treinados, e dois dias depois pedir auxílio ao Exército.

As Forças Armadas já tiveram graves problemas quando foram designadas para funções policiais. Além dos problemas já relatados, houve um período em que o Exército foi usado para combater o contrabando de café. Segundo relato de oficiais, eles acabaram por deixar a atividade devido ao aumento da corrupção na tropa.

Esse não é um problema só do Exército. Em São Paulo a PM deixava uma viatura defronte a um cortiço, num casarão pertencente à família Santos Dumont, onde funcionou por anos um ponto de venda de drogas. Para diminuir o risco de perder homens para o dinheiro fácil, a operação foi cancelada.

Como disse no início, estamos vendo ao vivo uma guerra urbana, real e muito próxima. A nossa torcida deve ser para que acabe e vire somente mais um episódio policial. As vidas e o futuro de uma grande população é que estão em jogo.

GUARACY MINGARDI É DOUTOR EM CIÊNCIA EM POLÍTICA PELA USP E EX-DIRETOR CIENTÍFICO DO INSTITUTO LATINO-AMERICANO DAS NAÇÕES UNIDAS (ILANUD)


Tópicos: Rio, Ataques