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Luiz Horta
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A família radical da uva biodinâmica

Enquanto respeitam a natureza, Léonard Humbrecht e Geneviève Zind produzem vinhos intensos e equilibrados

27 de março de 2008 | 3h 29
Luiz Horta - O Estado de S.Paulo

Da união dos simpáticos Léonard Humbrecht e Geneviève Zind saíram resultados extraordinários: a soma das histórias vinícolas das duas famílias, o Domaine Zind Humbrecht; alguns dos melhores crus da região; e um filho famoso, Olivier Humbrecht, que dirige hoje a casa e é presidente da Byodivin, associação de produtores biodinâmicos. "Foi Olivier que nos levou à biodinâmica, que é o respeito pelo meio ambiente, mas também busca de qualidade dos vinhos. Não tem nada a ver com hippies cabeludos", ri Léonard. "Podemos ser biôs e modernos, sem teias de aranha." A história é conhecida e se repete nos que aderem ao cultivo orgânico: a química na segunda metade do século 20 destruindo as pestes e aumentando a produtividade e levando junto o ecossistema. "Se uma pessoa trabalha 18 horas por dia fica doente. A química forçou isso na natureza, os vinhedos adoeceram, os pássaros sumiram, tudo se desequilibrou. Ainda estamos no processo de recuperação do mundo dos vinhos. Não adianta ser biodinâmico sozinho, é preciso convencer os vizinhos, porque a terra espalha os produtos químicos." Seria fácil converter toda a Alsácia à biodinâmica, porque é a região mais seca da França, com pluviometria de 500 mm por ano.

O que pensam da lutte raisonnée, o esforço de setores para diminuir sem eliminar totalmente o uso de pesticidas e fertilizantes? Léonard sorri, irônico: "Não é solução. Seria como um drogado dizer ?vou tomar uma dose só, uma pequena, ou fumar só um cigarrinho?."

Conversar com o casal é ter uma aula de humildade diante da natureza, chega a ser exasperadora a paciência com que encaram o trabalho das vinhas. Não usam madeira nova, usam as tradicionais foudres, não fazem filtragem, nem clarificação, tudo puro. Malolática só quando acontece. As maturações são longas, a fermentação depende do capricho das leveduras naturais, podem levar mais de um ano. "Nunca corrigimos o vinho na cantina. Se não estiver bom temos que voltar ao vinhedo, pensar o que aconteceu lá, recomeçar para o ano seguinte."

A palavra terroir é seu cotidiano, os dois desenham mapinhas da região enquanto falam, para explicar a importância da insolação, da inclinação das encostas e da altitude, algo tão imperioso quanto falar dos vinhos.

"A Alsácia tem a maior variedade de solos do mundo, podemos experimentar de tudo, dentro do permitido pela AOC (Appellation d?Origine Contrôlée): Pinot Gris, Pinot Noir, Gewurztraminer, Riesling em solo vulcânico, noutro granítico e num calcário."

E os vinhos? Embora a teoria seja boa e bem estruturada há sempre o risco de os vinhos não estarem à altura. Os vinhos Zind Humbrecht, trazidos pela importadora Expand, superam o discurso. Os sete provados têm personalidades muito definidas, são intensos, mas muito equilibrados. Basta citar o Clos Hauserer 2006, um dos raros vinhedos murados (clos) e monopole na Alsácia, com uma mineralidade muito presente, aula de Riesling e tipicidade. Uma última curiosidade: Olivier Humbrecht estampa nos rótulos índices, de 1 a 5, que mostram, do mais seco ao mais doce, a sensação ao paladar de cada um, já que a classificação alsaciana, diferente da alemã, confundia os consumidores. Esses números facilitam o métier das harmonizações.