A rosa de Fukushima
Crise prova ser impossível estabelecer padrões de segurança completa em usinas atômicas, diz historiador da corrida nuclear
Vencedor do prêmio Pulitzer de 2006 com uma biografia definitiva de J. Robert Oppenheimer, o pai da bomba atômica americana, o historiador Martin Sherwin tem acompanhado com particular interesse os desdobramentos da tragédia no Japão. Professor da George Mason University, em Washington, e ex-docente da Walter S. Dickson e Tufts University, ele é especializado na corrida armamentista que se seguiu à 2ª Guerra Mundial – e identifica nas reações do povo japonês nos noticiários o “trágico paralelismo” entre o acidente nuclear em Fukushima e o trauma histórico dos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki pelos EUA em agosto de 1945.
Na entrevista a seguir, o autor de Um Mundo Destruído: Hiroshima e seu Legado (não lançado no Brasil) afirma que, pesando prós e contras, o resultado da descoberta da fissão nuclear tem sido “um grande desapontamento” e que a maneira como o Japão se recupera do acidente em Fukushima vai redefinir os debates em torno do uso da energia nuclear no mundo – hoje definido muito mais por critérios políticos que científicos ou econômicos. “A afirmação de que é possível estabelecer padrões de segurança completa é uma mentira.”
O incidente em Fukushima suscita que tipo de reflexão?
O enorme dano causado no Japão pelo terremoto, o tsunami e, então, as explosões nas plantas nucleares de Fukushima evocam sem dúvida Hiroshima e Nagasaki. Ninguém precisa ser um historiador que escreveu sobre esses temas, como eu, para se dar conta desse trágico paralelismo.
Na quarta, pela segunda vez na história – a primeira foi em 1945, após caírem as bombas sobre Hiroshima e Nagasaki –, um imperador japonês usou a mídia de massa para falar a seu povo. São traumas comparáveis?
Japoneses idosos que moravam nas áreas devastadas pelo tsunami compararam o que estão testemunhando à experiência vivida durante a 2ª Guerra Mundial. Mas é importante não avançar demais nessa comparação. Na 2ª Grande Guerra os danos foram infligidos ao Japão pelos americanos; agora, os EUA e outros países estão fazendo o que podem para ajudá-lo. Esse novo trauma tem duas dimensões: a do transtorno infligido pela natureza e aquele causado nas plantas nucleares japonesas. A forma como o Japão irá se recuperar da tragédia vai determinar o debate sobre o futuro da energia nuclear no mundo.
Em sua biografia de Oppenheimer, o sr. relata em detalhes a crise moral do pai da bomba atômica, que caiu em depressão após a destruição de Hiroshima. O uso da tecnologia nuclear para fins pacíficos também levanta dilemas éticos?
A verdade é que o resultado da descoberta da fissão nuclear no fim dos anos 30 tem sido um grande desapontamento. Em seu uso militar, nas armas nucleares, ela ameaça a sobrevivência humana. No uso pacífico, ameaça a saúde tanto em caso de acidente como no manejo do lixo radioativo. A maior promessa desse tipo de tecnologia era trazer uma solução fácil para grandes problemas: armas que dissuadiriam nações inimigas e energia segura para iluminar as cidades. A questão é que as consequências, em caso de falha, são catastróficas. A verdadeira segurança reside na abolição dessas armas e na eliminação das plantas nucleares mundo afora.
Ao longo da semana, os EUA pressionaram o Japão por relatórios mais precisos sobre o que ocorria nas usinas e chegaram a sugerir que Tóquio ocultou informações. A China também protestou. Tais declarações podem abalar as relações entre esses países?
Duvido que a pressão americana por relatórios mais acurados possa desgastar as relações com o Japão. Tensioná-las temporariamente, talvez; mas danificá-las, não. Até porque, no fim das contas, um acidente nuclear resulta na liberação de radiação na atmosfera. É muito mais uma questão global do que assunto nacional. Veja que já há relatórios dizendo que a radiação emitida em território japonês em breve chegará à Califórnia. Por isso, eu aprovo a pressão americana e considero igualmente bem-vindas as manifestações da China. Tudo deve ser transparente no domínio nuclear. É algo tão sério que o mundo deveria evoluir para um órgão internacional que controlasse de fato o desenvolvimento atômico – ideia que Oppenheimer já defendia em 1946.
Analistas dizem que, ao contrário do desastre de Chernobil, ocorrido em um país de baixa tecnologia como a Ucrânia, o acidente no Japão pode colocar em questão o uso da energia nuclear no mundo. O sr. concorda?
Concordo que o que houve com as plantas nucleares japonesas é um alerta geral: a segurança absoluta, no que se refere à energia nuclear, é impossível. A afirmação de que é possível estabelecer padrões de segurança completa é uma mentira.
Outros sustentam que a energia nuclear é segura e menos danosa ao meio ambiente.
Quando todos os custos são considerados – eu digo, todos eles –, a energia nuclear é provavelmente a forma mais cara de produção de energia. É mais limpa que a queima de carvão? Não quando a possibilidade de acidentes como o que estamos vendo é contabilizada. E mesmo o carvão pode ser queimado de forma “limpa”, embora custe mais caro. Ainda assim, sua energia é mais barata e segura que a das usinas nucleares. Mas as melhores fontes de energia limpa são o sol e o vento, entre outras.
O Japão já é um dos países mais avançados na produção de energia limpa: é responsável por 50% da energia solar gerada no mundo. Essa semana, a Alemanha, a Suíça e até a China suspenderam temporariamente seus programas nucleares. Estaríamos presenciando o ocaso da era nuclear, que teve início no século 20?
Possivelmente. O problema é que as decisões relativas ao uso de energia nuclear são políticas – não são científicas, nem estritamente econômicas. Ciência e economia são manipuladas para fundamentar argumentos, tanto dos prós como dos opositores ao uso da energia nuclear. Sendo que os prós detêm mais meios econômicos à disposição e estão frequentemente em vantagem em relação aos contras.
Martin Sherwin - HISTORIADOR, AUTOR DE PROMETEU AMERICANO: TRIUNFO E TRAGÉDIA DE J. ROBERT OPPENHEIMER E UM MUNDO DESTRUÍDO: HIROSHIMA E SEU LEGADO
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