Ansiedade sem limites
Confundida com problema cardíaco, a síndrome do pânico acomete duas mulheres para cada homem
O velho gatilho dispara dentro da mente. O coração bate a três mil por hora, começam formigamentos, suores, tremores e uma sensação de estranhamento, medo de desmaiar e, muitas vezes, de morte iminente ou enlouquecimento. Tamanho o desconforto que muitos vão até para o hospital, suspeitando de um enfarte, mas são mandados de volta para casa, pois os exames não detectam nada. Às vezes, a estrada é longa até que se tenha o diagnóstico real: síndrome do pânico. Cerca de 3,5% da população sofrem desse problema. A faixa etária mais vulnerável é dos 20 aos 40 anos.
Está caindo por terra a idéia de que esta síndrome é um problema puramente neurológico. Hoje, até os psiquiatras atribuem o transtorno a um histórico emocional que tenha acarretado uma ansiedade acima do normal. E não se trata de uma patologia moderna, ligada ao estresse. Apesar de ter sido diagnosticada em 1980 pela primeira vez, há casos descritos desde o século 19. Freud definiu o transtorno como "histeria de angústia". "Hoje se diagnostica mais o transtorno", diz o psiquiatra do Ambulatório de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, Tito Paes de Barros Neto, autor do livro Sem Medo de Ter Medo (Casa do Psicólogo). "A incidência não é maior nas grandes cidades."
As mulheres são mais afetadas que os homens, na proporção de dois para um. Isso se deve às oscilações hormonais, entre outros fatores que as deixam mais vulneráveis. "Também é uma questão cultural", diz Tito. "É mais fácil elas admitirem que sentem medo do que os homens."
Se no histórico pessoal constar ainda "pais ansiosos", o risco é maior. Segundo os médicos, geralmente os portadores sofreram de falta de cuidados na infância ou, pelo contrário, tiveram pais superprotetores que sugeriam que o mundo seria um lugar hostil. O psicólogo Artur Scarpato, especialista no tratamento dessa síndrome, fala: "é comum encontrar nas pessoas com pânico um histórico de perdas, rompimentos de vínculos e problemas de relacionamento."
Na idade adulta, o primeiro ataque de ansiedade pode ser detonado depois de uma crise existencial, evento traumático, período de estresse, separação, grande decepção ou mudanças significativas na vida. Tudo começa com alguma alteração no corpo, seja taquicardia ou outro sintoma. A pessoa fica tão ansiosa que começa a respirar de forma mais curta. Os outros sintomas são acionados e vão ficando mais acentuados, num efeito bola de neve. "A pessoa com pânico entra num estado de extrema vulnerabilidade e desamparo, pois perde a confiança em seu próprio corpo. Por isso é freqüente a necessidade da companhia de outra pessoa confiável", explica Artur.
Cerca de 5% das pessoas acometidas pelo pânico passam a evitar a situação que desencadeou o primeiro episódio ou outras relacionadas, que possam causar crises. Não bastasse o desconforto, existem dois outros grandes riscos: dependência de álcool ou de calmantes, quando tomados sem controle médico. "Muitos começam a beber demais na tentativa de relaxar. Mas, com o tempo, o álcool piora a ansiedade", alerta Tito.
Existem tratamentos para a síndrome. Uma consulta a um psiquiatra é essencial. Para controlar as crises de ansiedade, são receitados antidepressivos e ansiolíticos (calmantes), mas numa dose recomendada. Para superar completamente o transtorno, recomenda-se a terapia - o que ajuda a entender a própria ansiedade e medos.
Tanto o psiquiatra Tito como o psicólogo Artur usam técnicas de gerenciamento das crises, ou seja, ferramentas para o paciente aprender a lidar com suas reações. São provocados alguns sintomas da crise para que a pessoa veja como controlá-los com a respiração e outros recursos. "De dois a seis meses, isso traz resultados excelentes", diz Artur. "O segundo passo é trabalhar com as memórias, o medo das separações, a questão dos vínculos. Esse é um processo mais longo, que pode durar até dois anos."
SUPERAÇÃO
Pessoas famosas também são vítimas da síndrome do pânico. A atriz Cristiana Oliveira, por exemplo, sofreu disso em 1995, seis meses depois da morte de sua irmã Lúcia. Ela conta:
- Tinha taquicardia e muita ansiedade. Comecei a sentir medo de sair de casa, de perder as pessoas que mais amava e de morrer. Tinha medo até de tomar uma aspirina antes de dormir e não acordar mais. Fiquei muito tempo sem colocar qualquer remédio na boca: morria de dor, mas não tomava nada.
Cristiana não deixou de trabalhar: na época, participava da novela Salsa e Merengue. "Enquanto fazia as cenas, não sentia nada, meu sofrimento era quando ia e voltava do estúdio." Contudo, resolveu encarar o problema. Procurou rapidamente um tratamento. Optou pela terapia e não quis tomar medicamentos. "Fiz terapia seis vezes por semana, durante quase dois meses, o que me salvou", fala. "Demorou mais tempo do que se tivesse tomado remédios, mas fiquei curada."
A empresária argentina, dona de agência de viagens, Mirta Granovsky, também foi vítima do pânico quando a síndrome era pouco conhecida. Hoje, aos 58 anos, respira aliviada com a superação. A sua primeira crise aconteceu depois que foi assaltada no trânsito. Na mesma noite, desmaiou em um restaurante. "Depois disso, fiquei um ano sem entrar em restaurantes." Como não sabia direito o que estava acontecendo, atribuiu o problema a uma má digestão, só que os sintomas se repetiam.
Mirta parou até de fumar, achando que era o cigarro que estava desencadeando as crises. Quatro dias depois de ter tomado essa providência, teve outro episódio no trânsito. "Meu coração disparou. Larguei o carro no meio da avenida, peguei um táxi e pedi para o motorista me levar para casa. Parecia que estava morrendo." A partir daí, começou a ter ataques no metrô, em lugares cheios, fechados e com muito barulho. "Acabava indo a pé para os lugares, tinha medo de multidões. Para alguém com uma personalidade controladora como eu, era frustrante não poder me controlar."
Como as crises aconteciam freqüentemente, consultou um cardiologista, que a mandou para casa, dizendo que não tinha nada. Decidiu ir a um terapeuta, que lhe indicou um psiquiatra. Tomou antidepressivos por um ano e ficou bem. Mas quando suas filhas foram morar na Europa e ela se mudou da capital paulista para Buenos Aires, teve recaídas. Ao todo, passou cinco anos tomando antidepressivos: quando parava, voltava a ter crises. "Depois que me separei do meu segundo marido, me curei", conta ela, que também voltou a fazer terapia. "Hoje acho que o transtorno tinha relação com a insegurança: sentia que não tinha um parceiro, tinha um peso."
Já a gerente de vendas Marina Lucchesi, de 51 anos, teve a primeira crise aos 40 anos. "Estava numa semana difícil no trabalho. No bar onde tomávamos café depois do almoço, senti um formigamento no braço, uma sensação de desmaio, parecia que ia morrer." No dia seguinte, teve uma crise dirigindo, em plena Marginal Tietê, com os mesmos sintomas. Depois disso, não entrava mais no carro, o que trouxe dificuldades práticas para sua vida.
Felizmente, Marina procurou um psiquiatra, que, além do pânico, também diagnosticou depressão. Ela passou a tomar calmantes e antidepressivos, parou de trabalhar por um mês, período que não foi nada fácil. "Tomava um calmante para ir almoçar, porque lembrava do primeiro ataque depois do almoço", conta. "Parei de sair, mudei para a casa da minha irmã e minha mãe veio me ajudar. Tinha medo de ficar sozinha até no meu quarto."
Já no segundo mês de tratamento, voltou ao trabalho, apesar de ainda apresentar alguns sintomas. Mas teve muita força de vontade e aprendeu a controlar o próprio medo. "Voltei a dirigir: escolhia avenidas menores. Se entrava em crise, parava num posto e pedia um copo de água até me acalmar." No meio tempo, começou a fazer terapia e procurou também tratamentos espirituais. "Era ansiedade no último grau." Há quatro anos não toma mais antidepressivos. Hoje está ótima. Faz tudo, só não entra em túneis muito extensos e não dirige em estradas. Mas isso é pouco para quem passou um tempo sem nem querer sair de casa. "No final, você sai fortalecida."
Siga o @estadao no Twitter
- 01 Petrobras busca reajuste de combustíveis via ...
- 02 Serra chama de 'lixo' livro sobre ...
- 03 Para bispo, ministra da Secretaria das ...
- 04 Japão mobiliza 900 soldados para ...
- 05 Irã bloqueia acesso ao Google e a outras ...
- 06 Retrospectiva 2011: Terremoto e tsunami matam ...
- 07 Mercadante quer dar bônus para escola que ...
- 08 PT reage a FHC: 'Disputa ideológica sobre ...
- 09 Presidente do PT critica privatizações ...
- 10 Em 2004, ministra admitiu ter feito ...
Grupo Estado
- Copyright © 1995-2011
- Todos os direitos reservados





