Arqueologia de um novo tempo
Em composição inspirada, Alessandro Mendini evoca a utopia para comemorar os 25 anos da Abitare il Tempo, em Verona
Eles jamais se encontraram. Compartilham décadas - por vezes, séculos - de distância. Foram produzidos em contextos tão diferentes que qualquer aproximação entre eles, aparentemente, estaria fadada ao insucesso. Estaria, diga-se bem. Isso, se o responsável pelo improvável encontro desses objetos muito especiais não fosse o designer e teórico italiano Alessandro Mendini.
Nascido em 1931, em Milão, é ainda hoje um dos mais influentes profissionais em atuação na Itália; poucos além dele exerceram papel tão importante no desenvolvimento do design italiano. Arquiteto de formação, pensador, jornalista e artista irrequieto, trabalhou também na área editorial, tendo dirigido a extinta revista Modo e a conceituada Domus.
Uma das personalidades centrais do movimento do design radical nos anos 70, Mendini foi um dos fundadores do Studio Alchimia, onde trabalhou ao lado de Ettore Sottsass e Michele De Lucchi. Atualmente, além de manter escritório próprio na cidade, atua como professor na Universidade de Milão.
Desde sempre interessado em misturar diferentes culturas e formas de expressão em suas criações - de produtos gráficos a móveis, de pinturas a edifícios, nada parece escapar de sua viva atenção -, não causa espanto que tenha sido ele o escalado para dar forma à Abitare l’Utopia, mostra que comemorou os 25 anos da feira Abitare il Tempo, realizada entre os dias 16 e 20 do mês passado, em Verona.
Reunindo um acervo livremente selecionado pelo designer, composto por joias, roupas, móveis antigos e novos, naves de ficção científica, obras de arte, relíquias, instrumentos musicais, estátuas de mármore, maquetes e desenhos, a Abitare l’Utopia, que contou com projeto expositivo de Luca Scacchi, foi encomendada, a princípio, como uma grande retrospectiva das quase três décadas de vida da feira vêneta. Vista, porém, a partir da perspectiva do designer milanês, seu alcance foi muito além.
Organizada, segundo Mendini, apenas a partir de suas "afinidades emocionais", sem nenhuma preocupação cronológica ou mesmo formal, a montagem surpreende, antes de mais nada, pela sua estrutura coerente: capaz não apenas de testemunhar, mais uma vez, o rico universo cultural de seu curador ou a qualidade material do produto italiano. Mas, igualmente, de oferecer a cada visitante a possibilidade de forjar suas próprias utopias.

Nova ordem. Composta por dezenas de itens que guardam em comum apenas o fato de terem sido criados ou produzidos na Itália, a exposição, propositalmente, abre mão de uma setorização ou percurso definidos. Em seu lugar, Mendini propõe uma série de possíveis deslocamentos, assumidamente pensados para embaralhar qualquer noção de passado, presente e futuro.
De fato, mais do que propor uma mera linha do tempo, seu interesse parece se assentar no circuito de relações que se estabelecem entre objetos e visitantes. O passado surge como agente capaz de evocar emoções, mas a ênfase está no futuro. Cada montagem aponta sempre uma nova ordem.O caráter multidisciplinar do design italiano, expresso no permanente trânsito entre procedimentos artesanais e industriais - não raro em um mesmo objeto -, é um elemento de destaque em diversos momentos.
Um deles é o elaborado trabalho de tapeçaria e bordado presente na poltrona Sushi, que combina a superfície inteiramente bordada à mão à estrutura produzida industrialmente pela Moroso. Outro aparece na transgressão sinalizada por Gaetano Pesce em seus vasos de resina, produzidos para a Fish Design. São peças que, apesar de empregar material de última geração, foram moldadas à mão, seguindo o modo de fabricação tradicional dos antigos artesãos do vidro.
Avesso, porém, a qualquer tentativa de se tomar uma das peças que compõem a mostra em separado, Mendini, como curador, prefere que cada uma delas seja vista como fragmento de um todo, " um fragmento de nossa complexa arqueologia contemporânea", define ele, que diz ter imaginado a exposição como um imenso jogo de referências. "Dos objetos com os objetos. E de cada um deles com cada pessoa."
Siga o @estadao no Twitter
- 01 Serra chama de 'lixo' livro sobre ...
- 02 Rota invade suposta reunião do PCC e ação ...
- 03 Marconi Perillo se antecipa à CPI do ...
- 04 Obama dá sinal verde a sanções contra ...
- 05 Mercado financeiro prevê PIB abaixo de 3% em ...
- 06 Cachoeira fica calado e CPI antecipa fim de ...
- 07 Governo já discute redução de superávit ...
- 08 ‘Estado’lança site e aplicativo para ...
- 09 Crise atual pode ser pior que a Grande ...
- 10 FGV: País tem queda de 7,26% no número de ...
Grupo Estado
- Copyright © 1995-2012
- Todos os direitos reservados





