As meninas da Rua Augusta
Elas trabalham na linha de frente e nos bastidores das casas de rock paulistanas, comandando o agito
Em meio às luzes de neon da Rua Augusta (sentido Centro) proliferam as casas de rock, atraindo uma leva de jovens e gente de meia idade. Nessa região, que tem sido chamada de "Baixo Augusta", a diversidade é a tônica. Nos endereços badalados, encontra-se uma legião de mulheres - hostesses, bartenders, DJs, gerentes, go-go dancers, caixas - que fazem a festa acontecer. O bar Astronete, aberto há dois anos, é comandado pelos sócios Claudio Vinicius Santana e sua mulher, a paranaense Noemi Rosa Santana. Os dois se conheceram nos Estados Unidos, e moraram juntos em Nova York. Ambos trabalharam na noite da Big Apple: ele como DJ e ela como bartender e, depois, gerente. Decidiram, então, que abririam uma casa quando retornassem ao Brasil. "O Astronete é uma junção de vários lugares que gostávamos em Nova York." Sonho realizado, hoje Noemi cuida de toda a parte administrativa do bar. "Trabalho o dia inteiro. É ilusão pensar que é só chegar à noite e abrir a casa", conta. E quais seriam as habilidades necessárias para não arrancar os cabelos? "É imprescindível ter paciência, senso de humor e ser comunicativa. Não consigo me enxergar fazendo outra coisa: sou uma pessoa realizada." Volta e meia, também encarnava uma go-go dancer, usando um figurino anos 50. "Adoro a noite", vibra Noemi, que costuma usar perucas diferentes, dependendo do estado de espírito. "Gosto de conversar, fiz muitas amizades. O bar é uma ponte para saber o que está acontecendo." A mineira Raquel Couto, 26 anos, já morou em várias cidades. Depois de ter passado pelo Rio de Janeiro e São Paulo, decidiu cursar uma faculdade de teatro em Porto Alegre. Sempre foi "muito da noite" e, na capital gaúcha, trabalhou como DJ em algumas festas de rock e de eletro. Depois assumiu a função de hostess. Há oito meses, voltou a morar em São Paulo, onde é produtora cultural durante o dia e bartender à noite. O trabalho noturno é no clube Vegas, sempre às sextas e sábados, das 21 às 5 horas. "Às vezes dá até para dançar um pouco e curtir a balada depois do expediente", conta ela, que é mais conhecida como Cuca. "É um pouco cansativo, mas é bom porque estou num ambiente gostoso, escutando um som que adoro. Foi genial, por exemplo, quando vi o show do DJ Justice há apenas três metros de distância", empolga-se. NO SOM Durante o dia, chama-se Marisa Oliveira, 33 anos, e trabalha numa escola bilíngüe. Foi lá que começou a ser chamada de Miss Má pelos alunos. O nome, porém, acabou pegando na noite, quando muda de figurino e vira DJ. Trabalha no Studio SP há dois anos, tocando nas festas de rock. "Sempre foi uma brincadeira, e continua sendo", fala. Tudo começou por causa do gosto pelo rock. Era amiga dos donos do extinto clube Atari. Quando um deles não pôde assumir o posto de DJ, ela o substituiu - com muito louvor. A partir daí, começou a tocar também em casas como Fun House, Vegas e Gloria. Depois que o Atari fechou, trabalhou algumas noites no Studio SP: foi o bastante para ser convidada a ficar. "Saio desde os 16 anos. O meio do rock indie (seu estilo preferido) é pequeno e amigo: todo mundo se conhece", conta. Ao contrário de outros DJs, não tem uma seleção fechada de músicas. Leva seus cerca de 600 CDs e, a partir da percepção do público, escolhe o que vai tocar. A programação nunca é igual. "Gosto do chamado rock sha-la-la, mais dançante", fala. Não perde o bom humor quando alguém encosta para pedir músicas que já cansou de mostrar. "É a minha terapia, é quando estou fazendo o que amo. Danço, pulo. Adoro quando corto o som e as pessoas continuam cantando a música." Marisa atua como DJ cerca de três vezes por mês. Quando esse trabalho é durante a semana, dorme pouco e vai para a escola de línguas às 7 da manhã. "Dá para conciliar as duas ocupações com profissionalismo", garante. "O rock não paga as contas grandes, mas é uma paixão. Vou lá, toco, vejo um show legal e ainda me divirto com as pessoas", resume ela, que, além de rever velhos amigos, faz novas amizades na noite. O curioso é que muita gente acha que o rosto grafitado, um dos símbolos do Studio SP, foi inspirado nela. "O grafiteiro nem me conhecia. Mas agora estou à procura dele para fazer algo parecido na minha casa." PERFORMANCE BURLESCA Reluzentes espartilhos de cetim, meias 7/8, saias curtas e lingeries especiais fazem parte do figurino de Fascinatrix. Vestida como uma pin-up dos anos 1950, ela faz performances burlescas em festas, eventos e casas noturnas, incluindo as da Rua Augusta. Ao som de Pink Martini, Janis Joplin e The Doors, dança com sensualidade em apresentações que resgatam o glamour e a inocência dos anos 40 e 50, e ainda provoca o público, tirando algumas peças de roupa - mas somente algumas. "Nessas décadas, a mulher era mais doce, feminina e usava roupas incríveis." A personagem foi criada por Karina Raquel de Campos, 34 anos, que estudou balé clássico desde pequena e queria ser bailarina. Mas o sonho foi interrompido quando entrou para a faculdade de Turismo e não conseguiu mais pagar as aulas de dança. Foi há uns três anos que resolveu assumir de vez o estilo pin-up. "Nunca gostei de me vestir como os outros." Passou a pesquisar mais a fundo a estética dos anos 1950. E acabou conhecendo nomes como os das performers americanas Dita Von Teese e Michelle L’amour, que fazem apresentações burlescas. Por sorte, a casa Loveland estava à procura de algo do gênero, e seu namorado a indicou. Deu tudo tão certo que Karina continuou apresentando-se semanalmente, por dois anos - até abril deste ano, quando o espaço fechou. Atualmente, recebe convites para diversos eventos, festas fechadas e abertas, como as do clube Vegas. "Minha vida mudou completamente, porque hoje faço o que gosto." Reuniu as paixões pela moda e dança, e continua pesquisando figurinos. O expediente noturno não prejudica sua rotina no dia seguinte. Vai à academia seis vezes por semana, pratica aulas de dança e de interpretação e canto. "Estou investindo na minha formação: quero fazer musicais", conta. "É um pouco desgastante dormir pouco, mas me esforço para manter esse ritmo no cotidiano." EQUILIBRISTA Quem comanda os 14 funcionários do clube Sarajevo e trabalha a noite toda para que tudo corra bem é a gerente Juliana Dias, de 25 anos. Casada com um músico, e mãe de Canã, de 2 anos e meio, ela rebola para dar conta da rotina puxada. A família mora em Santo André, e Juliana vai trabalhar na Rua Augusta de quarta a domingo, das 21 às 7 horas. Geralmente, tenta ficar acordada até umas 13 horas para curtir o filho, já que ele vai para a escolinha à tarde. "Estressa dormir pouco, emagreço muito, mas me esforço para conviver com meu filho", diz Juliana, que trabalha há dois anos e meio na casa. Começou como hostess e foi promovida a gerente. Teve um brechó durante um ano, que funcionava dentro do Sarajevo. Agora coordena outro projeto ligado à moda, o qual já teve a primeira edição: um bazar que reúne brechó, peças de novos estilistas, música e live painting (pintura ao vivo). "Trabalho com uma amiga que desenvolve coleções para grandes marcas e me dá consultoria." Muito ativa, circula pela casa durante a noite para conferir se tudo corre bem. "É muito comum, no momento de pagar a conta, o cliente falar que esqueceu o cheque e o cartão." E aí? "Tentamos negociar, seguramos algum bem pessoal e, assim, deixamos a pessoa voltar depois para pagar. É preciso saber argumentar, ter paciência e manter a calma." Se há algo que ela não tolera é assédio. "Olho feio e, se precisar, até tiro a pessoa da casa. Tenho que manter a postura exigida pelo meu cargo." A noite é uma velha conhecida de Juliana. Começou aos 17 anos, como garçonete de um restaurante vegetariano, onde assumiu diversas funções: caixa, hostess, bartender e gerente. Começou a estudar Naturologia, mas deixou as aulas para viajar pelo Brasil. Quando retornou a São Paulo, voltou a trabalhar em um restaurante e depois foi contratada pelo Sarajevo. "Conheço pessoas encantadoras. Você vai criando teias de relações."
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