Com fogo nas ventas

Que pacíficos que nada. "Os brasileiros têm pouca tolerância ao diferente", diz pesquisador gaúcho

MÔNICA MANIR,

20 Novembro 2010 | 14h41

 

Ativistas pelos direitos dos homossexuais balançam as bandeiras do movimento durante manifestação em Belgrado, em outubro de 2010. Foto: REUTERS/Marko Djurica

 

 

Um militar está detido por ter baleado um rapaz no Arpoador depois da Parada no Rio. O motivo suposto? O fato de esse rapaz ser homossexual. Cinco jovens de classe média agrediram três jovens na Avenida Paulista com socos, pontapés e lâmpadas fluorescentes. O motivo alegado? As vítimas os teriam paquerado. Ainda que, por enquanto, imagens não comprovem de vez coisa ou outra, o clima de suspeição levou a uma grita contra e a favor da discriminação sexual que envolveu manifestos, disparos no Twitter de lado a lado e discussão sobre o projeto de lei que propõe a criminalização da homofobia.

 

Estudioso das masculinidades, o professor Fernando Seffner entende que a discussão é seminal por levar à reflexão sobre violências e intolerâncias, sejam elas em espaços restritos como baladas universitárias, sejam elas em cenários públicos, como a avenida mais agregadora de uma metrópole. Repete que as diferenças continuam coibidas, e isso se estende até a contornos mais adiposos. "Como se diz nos Estados Unidos, os gordos são os novos negros." Nesta entrevista, com ele sediado na capital gaúcha, Seffner discorre sobre reações descabidas, experimentações da juventude e paradas gays. Tudo sob uma máxima de Foucault: "A verdade de cada um está muito ligada à verdade do sexo".

 

Aumentou a violência contra os gays? Ou temos dado mais destaque a isso nos últimos tempos?

 

Acho que temos uma mistura de fatores que promovem, sim, um aumento dessa violência. Um deles é a maior visibilidade dos indivíduos gays, que ajuda a provocar reações. Aqueles que ficam escondidos, que nunca dizem de si, são mais difíceis de ser interpelados. Claro que, se está todo mundo na Parada do Rio, dificilmente há reações contrárias. Estamos nos referindo a uma visibilidade de grupos menores ou de indivíduos, que ficam mais vulneráveis à agressão. Em segundo lugar, a nossa democracia tem permitido mais voz a quem tinha pouca. O melhor exemplo é o da violência contra a mulher. Temos tido uma explosão de denúncias. Existe a consciência de que o que antes não era denominado violência agora pode vir a ser.

 

Mas por que reagir com agressão física diante de um incômodo?

 

Como diz o antropólogo Luiz Eduardo Soares, temos a tradição no País de resolver as coisas na base da violência. Especialmente na questão das masculinidades, e não só no Brasil, seguimos com modos muito violentos de criação de garotos. Para virar homem no colégio, no jogo de futebol, na roda de amigos, o menino passa por uma socialização que envolve agressão simbólica, agressão física, brigas... Portanto, não me parece difícil entender que, na hora do aperto, o recurso seja esse.

 

Ser assediado por outro homem pode ser considerado um "aperto"?

 

Na hora em que um homem olha para outro homem com interesse erótico, não é só uma questão de dizer "Tudo bem" e ir embora. Infelizmente, esse olhar de interesse traz para alguns homens héteros, ainda mais na idade de que estamos tratando, a suspeição sobre a própria sexualidade. Não sou da linha de dizer que todo homem que bate em gay é uma bicha enrustida. Conheço sujeitos violentos e homofóbicos que, na verdade, tinham caso com outros homens, mas não é regra geral. O fato é que, se na saída da boate houvesse cinco mulheres, mesmo que mulheres grandes diante de guris magricelas, isso não seria considerado problema porque é reforçador da heterossexualidade. Das muitas reações que um homem pode ter, se ele é heterossexual e percebe que outro homem o olha com interesse, ir lá e socá-lo é o que não deve acontecer.

 

A agressão aos rapazes ocorreu na Avenida Paulista, cartão-postal que aglutina pessoas de todos os cantos da cidade e ponto de encontro de manifestações democráticas. A intolerância naquele espaço não lhe soa estranha?

 

Sim. Concordo contigo. Seria como comparar modestamente em Porto Alegre com a Esquina Democrática, na Borges de Medeiros com a Rua dos Andradas. Há alguns anos ocorreu uma agressão violenta ali, que foi muito comentada porque é um local com história de luta pela democracia. Mas temos no Brasil uma tradição de pouca tolerância no espaço público. As diferenças continuam coibidas. Primeiro porque vivemos numa das sociedades mais desproporcionais do mundo. Pouco se enfatiza o fato de nosso país estar entre os cinco mais desiguais. Isso provoca uma tensão na sociedade muito grande. Mas, ora, se não gosto de homossexuais, não preciso chamá-los para o jantar. Se não gosto de gordos - os gordos são os novos negros, como se diz nos Estados Unidos, em matéria de abjeção social -, então faço uma festa e não convido ninguém acima do peso. Mas o espaço público é o espaço da diferença. A gente precisa se entender.

 

A repercussão desse caso teria sido diferente se os agressores não fossem de classe média alta?

 

Acho que existem aí algumas armadilhas. Fica menos atraente para a imprensa e mais fácil de classificar quando é pobre agredindo rico e negro roubando de branco porque cai numa chave de compreensão do fenômeno à qual estamos acostumados. Mas o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) e a Secad (Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade) têm uma pesquisa, que coincide com outra feita pela Fundação Perseu Abramo, afirmando o seguinte: a homofobia diminui pouco com a escolaridade. Os indivíduos mais escolarizados têm tendência a responder às perguntas sobre aceitação da diferença sexual de forma politicamente mais correta, e só. Isso significa que para muita coisa a escola e a universidade fazem diferença, mas para essa questão, não. Muito provavelmente esses rapazes passaram por famílias, colégios, clubes, cursos de inglês e grupos de amigos onde o tema do respeito à diferença nunca foi claramente adotado.

Existe um outro levantamento, feito pela ONG carioca Conexão G, que mostra que diariamente pelo menos um homossexual é vítima de agressão nas comunidades carentes da cidade. Gays, lésbicas e travestis são espancados, ameaçados de estupro e até expulsos das favelas onde moram.

Vou dar um exemplo da cidade onde vivo. Os travestis, que em geral moram em lugares muito pobres de Porto Alegre, têm uma aceitação ali maior do que se imagina. Não são vistos como tão exóticos assim. Mas isso alimenta a ideia de que os pobres são mais solidários entre si, com o que não concordo. Acho que cada classe processa seu incômodo com essas diferenças. Nesse ponto sou bastante foucaultiano: a verdade de cada um está muito ligada à verdade do sexo. Posso saber tudo sobre fulano, e até estou pensando em votar nele para Presidente da República, mas, se revelarem que é gay, metade dos votos vai embora. Recuperando uma pesquisa da demógrafa Elza Berquó, o que efetivamente produz uma modificação no modo como as pessoas olham para os gays é alguém da família ou do círculo próximo de relações se assumir como tal. Ao fazê-lo, a pessoa obriga os outros a repensar seus valores. Não adianta olhar para a mãe de um menino, que está incomodada porque o guri é um pouco afeminado, e dizer: "Olha, o Rick Martin também é gay e se deu bem na vida". Rick Martin pertence ao Monte Olimpo. Agora, se o filho da dona de casa e do pedreiro, que moram vizinhos dela, se mostra bem com sua homossexualidade, a coisa muda de figura. Os pais conseguem perceber que existe um projeto viável de ser feliz sendo gay.

 

A Parada Gay ajuda nessa aceitação? Ou está mais para o espetáculo?

 

A Parada hoje é um evento entre o festivo e a visibilidade a qualquer preço. Ela tem um retorno econômico muito grande, um efeito cultural, mas é um pouco fogo de artifício. Basta ver o que aconteceu no Rio. A Parada terminou, e uns jovens ficaram se beijando no Parque Garota de Ipanema, no Arpoador. Já eram 23h e a polícia foi lá e deu uns tiros. O que é mais ou menos o recado da sociedade: "Olha, gente, acabou a Parada. A hora de se beijar, de andar de biquíni era aquela, agora não dá mais. Voltou a vida como ela é. Aqui não pode". Depois da Parada, o mundo volta a ser como é todos os dias: homofóbico. A Parada teria o efeito de amplificar, mas não que a luta se restrinja àquele dia. Para a minha linha de pesquisa, ela é interessante porque vejo ali, por exemplo, muita gente jovem assumindo a sua homossexualidade. O menino de 13 anos, a menina de 14 com a sua namorada. Essa é uma coisa que tento entender.

 

Esses garotos que estão se assumindo têm estrutura para isso? O projeto americano It Gets Better é uma reposta ao alto índice de adolescentes gays que tentam o suicídio.

 

O que noto é que hoje em dia você não entra em uma escola pública aqui do Rio Grande do Sul sem que veja ao menos um menino mais afeminado ou uma menina com uma feminilidade diferente. Podem ser gays ou não, não vou lá perguntar, mas acho que esse fenômeno é muito intenso numericamente. Existe uma faixa de adolescentes que se propõe a fazer algumas experimentações com a sexualidade, essa coisa que muito genericamente tem se chamado de "experiência queer". Alguns usam o termo bissexual para escapar dos rótulos. Mas nem sempre esses jovens têm estrutura para levar adiante a sua proposta. Para ilustrar, vi dia desses um guri magrinho que nem um dedo mindinho, ao lado do namorado dele, idem magrinho, falando sobre como é a situação familiar. Supercombativo, disse ter comunicado a mãe e o pai que ia namorar em casa porque a irmã fazia o mesmo com o namorado. Aí a mãe reagiu: "Mas tu não vê que seu pai fica incomodado e vai embora?" E o guri: "Não interessa. O meu pai que se ajeite porque eu vou namorar na sala". A minha vontade de homem de 54 anos é dizer: "Filhinho, não dá para ir um pouco mais devagar? Nem conheço o teu pai, mas chego a ficar com pena dele". Será que tem que ser assim?

 

A lei da criminalização da homofobia pode ajudar a diminuir o preconceito? Ou tende a acirrar a intolerância?

 

As leis têm uma consequência simbólica muito importante, e a que criminaliza o racismo é um bom exemplo. Sabemos que o número de pessoas processadas por racismo é pequeníssimo, mas essa lei fez com que as pessoas percebam que isso é crime. Uma lei semelhante, que é a que o movimento gay apoia, quer dizer o seguinte: constitui crime usar contra mim a minha preferência sexual, como constitui crime jogar na minha cara a minha cor de pele para me diminuir. Algumas igrejas querem fazer a opinião pública acreditar que não será mais possível criticar os gays. Na verdade, as pessoas poderão, em outros recintos, continuar não admitindo os homossexuais. Não tem nenhum problema. Isso é a sociedade civil. A legislação nunca considerou a homossexualidade crime nem doença. Não há motivo para retirar um homossexual do convívio social ou dizer que a pessoa não pode viver dessa maneira.

Fernando Seffner / PROFESSOR DE EDUCAÇÃO NA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.