Decoração, mania russa
Design de interiores vira febre no país, agora rico com o dinheiro do petróleo
Há dois ditados populares na Rússia: "Reformar seu apartamento é um modo de vida" e "Reformar seu apartamento é pior que incêndio". Enquanto fala, Marina Albee, sentada perto de seu fogão provisório no living do apartamento em São Petersburgo, olha com pesar para a cozinha, onde um grupo de pedreiros usbeques vem martelando há duas semanas, como só eles conseguem fazer. "Todo mundo que conheço está fazendo reformas", diz Marina, uma americana que leciona Filologia e é casada com Alexei Haas, importante decorador russo. "Tantos casamentos foram desmanchados, tantas fortunas perdidas..."
Depois de uma década em que russos endinheirados e conscientes do status sucumbiram a um ataque consumista após outro - primeiro roupas de grife, depois relógios em edições limitadas, carros como Bentleys e Maseratis, e obras de arte - , agora o design de interiores torna-se a última loucura de consumo. Entre milionários que controlam as indústrias do país e a classe média russa, reforma (ou remont) é assunto de conversa em jantares, salões de beleza e academias.
A nova riqueza na Rússia, estimulada pela produção de petróleo e gás, criou um filão de ouro para designers de interiores americanos e europeus - caso de Juan Pablo Molyneux, de 59 anos, decorador nova-iorquino que trabalha num palacete de 11 mil m², na periferia de Moscou. O cliente é um industrial e Molyneux visita a obra a cada 10 dias. "E onde havia meia dúzia de profissionais russos há cinco anos, agora há centenas", diz Brigitte Saby, designer de interiores de Paris, uma das primeiras ocidentais a correr à Rússia, nos anos 90.
Um cinza bem soviético
Há 23 escolas de design em Moscou, quase todas fundadas nos últimos três anos, e 46 revistas de decoração e arquitetura de ?idade? semelhante, segundo Karina Dobrotvorskaya, editora da Russian Architectural Digest, lançada em 2002. "Decoração hoje está na moda", diz Karina, de 39 anos. "Todas as garotas de programa adoram intitular-se ?designers de interiores?."
Quando Brigitte chegou a Moscou para decorar o apartamento de um empresário, em 1993, dois anos depois do colapso da União Soviética, "ninguém entendia a palavra ?decorador?", lembra. "A maioria dos apparatchiks (a classe média do Partido) tinha os mesmos sofás e poltronas... Era horrível, bem soviético." Entretanto, quem tinha algum dinheiro logo abandonaria o estilo apparatchik, com resultados mistos. O rígido cinza soviético foi substituído, nos meados dos anos 90, por um look que muitos designers relembram com horror: era o euro remont, espécie de versão russa do estilo ocidental feito com acabamentos de mau-gosto e construção visivelmente barata. "O euro remont era vulgar", diz Brigitte. "Tudo tinha de ser brilhante e novo, com spots e colunas por toda a parte... O lema era ?tem de ser novo ou não é bom?". Andrei Dmitriev, um dos designers de maior fama no país, descreve o estilo como "a interpretação bárbara do belo".
Em anos recentes, os russos endinheirados passaram a desenvolver outra relação com a chamada ?cultura material?. "A maior diferença entre os clientes russos dos anos 90 e os de agora é que eles viajam muito", diz o designer de interiores Kirill Istomin, moscovita de 30 anos, que estudou na Parsons School of Design, em Nova York. "Eles vivem num nível de conforto classe A. Por isso seus olhos estão mais educados", opinia Istomin. "Não estou dizendo que eles percebem a diferença entre uma bergère e uma poltrona, mas entendem que decoração é parte importante da cena social - não basta ter uma bolsa de pele de crocodilo de US$ 1.800."
Decorador, um psicólogo
O mundo também vem à Rússia, caso da Feira Internacional de Belas Artes de Moscou. A mostra anual de obras de arte e itens de coleção, como a mobília européia, já triplicou de tamanho (hoje são 70 expositores), desde sua criação há três anos. Além disso, as revistas do setor - sobretudo Russian Architectural Digest, Russian Elle Décor e Mezzanine - expõem aos seus leitores interiores sofisticados de Nova York, Tóquio, Roma. E a Ikea, que começou a vender seus móveis de design sueco para a Rússia em 2000, agora tem cinco lojas e três mega-shoppings abertos no país, onde já investiu US$ 1,7 bilhão.No meio disso tudo, decoradores - sobretudo os de experiência internacional - passaram a ser vistos como magos do bom gosto, com o poder de ajudar a clientela a se refazer para o mundo pós-comunista. "Sou como um psicólogo para meus clientes", diz Mira Apraxine, designer de interiores de 45 anos, em Moscou. "Eu explico o futuro, como cada um deve se posicionar. O décor reflete sua personalidade... É por isso que tenho tanto sucesso."
E, como as influências ocidentais e a sensibilidade russa se misturaram, alguns decoradores ampliaram seus horizontes para além do minimalismo high-tech e do modernismo italiano, que entrou na moda depois do euro remont. Vários profissionais, incluindo Mira Apraxine e Dmitriev, perseguem versões de um refinado ecletismo, que combina mobiliário europeu, tanto antigo como moderno, com pinturas e elementos decorativos russos pré-revolucionários e contemporâneos.
Mix russo e ocidental
Essa nova estética - chamada russo remont - parece expressar uma emergente confiança nacional e um desejo, tanto dos decoradores como de seus clientes, de se colocarem à parte de seus pares europeus. O surgimento de designers de interiores talentosos e seu papel na educação do gosto russo é um presente para editores de revistas como Karina Dobrotvorskaya.
"Em comparação a quatro anos atrás, hoje é mais fácil encontrar projetos russos que desejamos divulgar", diz. "Antes, precisávamos usar o Photoshop (programa de edição de imagens) para limpar os detalhes horrrorosos." Dmitriev, de 49 anos, cujo trabalho talvez represente a mais original mistura de influências russas e ocidentais (seus ambientes de um luxo rústico são mais uma expressão artística do que um alívio para os egos dos oligarcas), acredita que os padrões estéticos do país ainda precisam melhorar.
"Entre os novos russos ainda persiste muito de vulgaridade", diz. Para ele, "o design ideal é uma ruína envolta em um rico tecido". Ele descreve seu trabalho como "miséria combinada com luxo". Mas muitos russos que podem contratar decoradores "gostam de tudo brilhante". Ou, como lembra Juan Pablo Molyneux: "Eles costumavam viver em cinco num quarto e, agora, quando vão às compras, perguntam logo onde fica o closet das peles."
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