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Desapego se aprende em casa

Ter de devolver brinquedos por segurança pode chatear os filhos, mas é uma boa chance para ensinar valores

22 de agosto de 2007 | 17h 14
Giuliana Reginatto - Jornal da Tarde

Uma garotinha de cinco anos procura voluntariamente sua mãe para contar que seu brinquedo contém um imã perigoso e precisa ser devolvido. Mais politicamente correto do que ela, só o menino que implorava brócolis para sua mãe em um recente comercial de TV. No caso de Maria Eduarda Bicudo, porém, a cena nada tem de fictícia. A menina decidiu se desfazer do adorado carrinho da boneca Polly após ver na televisão uma reportagem sobre o recall da Mattel, empresa que na semana passada recomendou a devolução de 18 milhões de brinquedos - 850 mil só no Brasil.

Na família de Natália Tonella, oito anos, a história dos brinquedos perigosos se transformou em conto de terror. Agarrada às bonequinhas, esperneou e implorou pela permanência dos brinquedos. Foi salva pela sorte: seus modelos não continham os tais imãs reprovados pela Mattel. 'Mesmo se as bonecas dela tivessem imã, não sei o que faria para convencê-la a devolver', desabafou a mãe, Angélica Tonella.

Algumas linhas da psicologia infantil apontam como solução para gerenciar o 'patrimônio infantil' o ensino da 'prática do desapego.' Apesar da conotação religiosa que a expressão 'desapego material' parece carregar, especialistas garantem que, na prática, ela pode se tornar uma boa ferramenta para a construção da personalidade infantil. 'Desenvolver o senso de desapego ajuda a criança a amadurecer para a vida. O aprendizado do desapego ajuda a saber separar o que importa afetivamente para ela - e a criança tem direito de guardar - do que é apenas um capricho', opina Juliana Amaral de Andrade, psicóloga pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) e especialista em psicopedagogia.

Para Leila Tardivo, doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), a prática do desapego faz parte de um processo maior: a educação moral. 'Ao aplicar testes psicológicos, tenho me surpreendido com a resposta à pergunta 'o que fazer quando estrago o brinquedo de um amigo?'. Bom, esperamos que a criança opte pela reposição do brinquedo, no sentido de reparar o dano, mas noto que muitas crianças simplesmente não têm essa noção de dever moral', relata a especialista.

Leila argumenta que cidadania e valores positivos são lições aprendidas em casa, que devem ser reforçadas pelo ambiente escolar. 'Hoje, contudo, ainda há escolas preocupadas em transmitir apenas o conteúdo escolar tradicional para seus alunos, deixando o aspecto moral para segundo plano. Neste caso, a criança vai precisar de um bom modelo em casa', diz. O pensamento da psicóloga explica a conduta consciente de Maria Eduarda, a garotinha que se desfez sem drama de seu brinquedo novo por uma nobre causa. 'Ela veio me dizer que estava preocupada com a irmã, que tem só dois aninhos e poderia engolir os imãs', conta a mãe da garota, Andréa Bicudo.

Desde muito cedo, a menina aprendeu com os pais que alguns valores, como a solidariedade, são importantes. 'Sempre fizemos uma triagem nos brinquedos com a Maria Eduarda para identificar quais poderiam ser doados. Hoje, muitas vezes, a sugestão da doação parte diretamente dela. Na hora de escolher a escola, procuramos uma que também se preocupasse com esse aspecto social. O mundo, no geral, anda egoísta demais', diz Andréa.

De acordo com Bel Cesar, psicóloga clínica com formação no Instituto Orff, na Áustria, praticar o desapego material é uma forma de preparar a criança para enfrentar necessários desapegos emocionais no futuro, tais como a perda de entes queridos ou rompimentos dolorosos. 'Vivenciar positivamente pequenas perdas é treinar para vivenciar melhor as grandes perdas . Se ela aprender a lidar com este desafio desde pequena será sem dúvida um adulto mais feliz.'

Esvaziando o baú de brinquedos

>>Estimular a criança a doar o excedente é importante, mas a escolha do que será ofertado deve ser feita com os pais. Especialistas ressaltam que o brinquedo é a forma pela qual a criança reproduz seu mundo interno. Assim, objetos que parecem sem importância aos olhos de adultos podem ter um valor sentimental elevado para os pequenos.

>>A educação moral deve começar cedo. Crianças sem incentivo para práticas solidárias geralmente se tornam jovens com as mesmas características. A psicóloga Denise Tardeli realizou uma entrevista com 396 adolescentes e descobriu que a ação social e solidária não faz parte do projeto de vida da maior parte deles. Edgar Morin, educador francês, já apontava a mesma lacuna na educação tradicional em seu famoso ‘Sete Saberes Necessários para a Educação do Futuro’ (Ed. Cortez), escrito nos anos 90. "Um dos principais objetivos da educação é ensinar valores. É preciso mostrar à criança como compreender a si mesma para que possa compreender a humanidade em geral", aconselhava o autor.

>>O conceito de ‘desapego’ tem relação com a filosofia budista. Tokuchika Miki escreveu ‘Vença Desapegando-se’ (Ed. Vida Artística). Ali, argumenta que agir no presente deve se sobrepor ao apego. "Num copo de água que já está cheio não há lugar para mais nada. Só pessoas que conseguem se desapegar do passado conquistam a felicidade no futuro", escreve.



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