Descompasso com a idade
Hoje, maturidade não é sinal de velhice... Pelo contrário, a jovialidade permanece e o pique também
Surfar com 76 anos, curtir balada aos 55, se tatuar e colocar piercing na viuvez, mudar de profissão na fase da aposentadoria, andar de patins no parque em vez de tricotar em casa, se tornar DJ aos 50, colocando a moçada para dançar ao som de música eletrônica. Hoje não há mais limites para se fazer o que bem entender, independentemente da idade que aparece no RG.
"Estamos num mundo de costumes e valores mais flexíveis do que décadas atrás", avalia Anita Liberalesso Néri, pesquisadora na área de psicologia do envelhecimento e professora do curso de pós-graduação em gerontologia da Universidade de Campinas (Unicamp). Se antes havia um roteiro rígido de como se portar e se vestir em determinada fase da vida, atualmente as regras estão bem mais frouxas.
Segundo pesquisa organizada por Anita e publicada no livro Idosos no Brasil: Vivências, Desafios e Expectativas na Terceira Idade, co-editado pela Editora Fundação Perseu Abramo e pelas Edições SESC, a maioria dos 2.136 entrevistados com mais de 60 anos e residentes em 20 municípios acredita que ser idoso hoje é melhor do que na época em que eram mais jovens.
Até mesmo o conceito de terceira idade mudou. Não dá mais para imaginar aquela figura tradicional do velhinho sentado em frente à TV, arrastando chinelo pela casa, ou da senhora fazendo crochê para os netos. Cabeça branca não é mais sinônimo de apatia, pelo menos para quem nutre o espírito com atividades que fogem completamente do padrão.
Affonso Freitas tem 76 anos e todo santo dia pega onda, na praia do Recreio dos Bandeirantes, zona oeste do Rio de Janeiro. Só não surfa quando o mar está de ressaca. Fora isso, nem chuva nem frio o afastam da prancha. No mês passado, fez um check-up e tirou nota 10 do médico, que ficou admirado com a saúde de seu paciente. "O importante é não parar", avisa o coroa enxuto. "Quem se acomoda, começa a pensar na idade e adoece."
O estilo de vida de Affonso é admirado por muitos e já foi parar nas páginas do livro Saúde em Suas Mãos, vendido apenas em sua loja de surfe, chamada Marcelo Freitas, nome de um de seus cinco filhos e tricampeão mundial de long board. Como se sabe, o surfe é um esporte típico de moçada. Mas, com seu exemplo, outros adultos também começaram a pegar onda. Entre os 600 associados do Surf Center, espécie de clube dos surfistas que pertence à família Freitas, 200 estão na faixa de 45 a 57 anos.
"Viram que a idade não era empecilho para se iniciar no esporte", conta Affonso. Ele mesmo deu uma reviravolta em sua vida, aos 38 anos, quando resolveu aprender a surfar e se meteu com a garotada do mar. Muita gente estranhou, a começar pelos próprios surfistas, na faixa dos 15. Mas estava tão determinado que superou adversidades, caras feias e preconceitos. Uma vez, conta ele, perdeu um fornecedor importante de sua empresa só porque surfava.
Casada há 34 anos com o empresário, Juliana também decidiu pegar onda. Cansada de esperar sentada na areia da praia, enquanto o marido e os quatro filhos surfavam, resolveu aprender a modalidade. "Só não entro na água no inverno, porque sou muito friorenta", confessa. "Aí prefiro andar ou correr."
BALADEIRA
A paulistana Selma Pattoli adora uma balada. Fez sua primeira tatuagem - no dorso da mão direita - e colocou piercing em uma das sobrancelhas recentemente. Sua vida deu uma guinada radical quando enviuvou, há cinco anos. "Quem me conheceu antes, não me reconhece mais", conta Selma, que comemorou seu 55° aniversário entre os amigos bem mais novos, em festança no Menthis, casa noturna onde tem mesa cativa. "Resgatei minha juventude e passei a transgredir, tanto é que não sou mais bem-vista pela vizinhança, mas isso nem me preocupa."
Impossível imaginar Selma como uma comportada dona de casa, que só usava saia até a canela, blusa fechada até o pescoço e lingerie fora de moda. Hoje, só usa calcinhas sensuais de renda e sutiãs poderosos, e capricha no decote. Quando ficou viúva, no entanto, demorou um ano para se livrar das roupas pretas e abandonar o luto. Ficou deprimida, mas, após insistentes convites das amigas, passou a sair. Nunca mais parou e, na falta de companhia, se produz e vai sozinha para a balada.
"Ter rompido com regras sociais foi muito difícil, mas tive a sorte de contar com o apoio da minha filha e do meu filho, hoje moços", lembra. "Apesar da discriminação que sofri no meu antigo círculo de amizades, descobri uma outra mulher que estava escondida dentro de mim. Hoje me sinto um mulherão e estou muito feliz com o que sou agora, e não com aquela do passado, que não tinha voz ativa no casamento por conta de um marido controlador e machista. Até sexo redescobri."
Para quem imagina que Selma só vive na gandaia, a loira tem três tipos de trabalho. Junto com sua melhor amiga - Cristina, de 26 anos - abriu o Home Staff, empresa que organiza de armários a almoços e jantares, de compras em geral a presentes de casamento. Em reuniões realizadas sempre em domicílio, vende roupas super modernas.
Dia sim, dia não, é cuidadora, com formação na Cruz Vermelha, em uma clínica especializada em doentes de Alzheimer. Como faz tudo a pé, anda 32 quilômetros por semana. Isso explica porque os paqueras dizem que ela tem mais pique do que muita menininha, principalmente do que o seu atual "rolo" - mantém um affair com um homem dez anos mais novo.
LIGADA EM 220 VOLTS
Conversar com Marie Josette Brauer é um misto de diversão e teste de atenção. Acelerada, conta sua história atropelando etapas e, sempre bem-humorada, sabe como ninguém rir de si mesma. "Completei 65 anos sem passar por nenhuma cirurgia, mas está ficando cada vez mais difícil pintar os olhos com tantas rugas", diz a psicanalista, palestrante e coaching. "Se não fosse o sexo, que é fundamental para mim e para a minha pele, as rugas poderiam estar piores !"
Para essa francesa radicada no Brasil, casada pela terceira vez e sem filhos, a palavra aposentadoria não existe. Como puxar o freio de mão quando se tem várias profissões? Com a carreira de psicanalista consolidada aos 39 anos, resolveu mudar de rumo. Especializou-se nos Estados Unidos, com os papas da Programação Neurolingüística, John Grinder e Richard Bandler, e voltou ao Brasil para dar workshops e palestras sobre o tema. Depois emendou com a formação em coaching.
"Costumo encontrar meus clientes durante o almoço, trabalho com eles nas longas esperas do aeroporto e viajo profissionalmente sempre que necessário."
Quer mais? Como é alérgica a produtos de higiene pessoal, ela mesma desenvolveu e produz uma linha natural de sabonetes, xampus, detergente, etc. Tudo tão de primeira que passou a exportar sua pequena produção para uma seleta clientela. O nome da marca é By Zazy, em homenagem a Zazie, personagem do romance de Raymond Quéneau, heroína francesa que sempre aprontava. Qualquer semelhança entre Marie e Zazie não é mera coincidência.
Uma das maiores diversões de Marie é patinar pela marquise do Parque Ibirapuera. Também adora viajar e desbravar sozinha um país desconhecido, sem a companhia do marido. E gosta de nadar, malhar, fazer hidroginástica e pilates, mas sem radicalismos. "Faço tudo por prazer, pois já encarei muita coisa chata. Agora quero curtir tudo, afinal, temos tanto para aprender e descobrir na vida!"
DJ AOS 50
Depois de se aposentar das corridas de stock car e Fórmula Indy, o piloto Raul Boesel mudou de pista. Aos 50 anos, comanda as pick ups de casas noturnas e faz a moçada dançar com sua seleção de música eletrônica. Quem vê, leva um susto. Primeiro, ao constatar que aquele cara lá do som é o ex-piloto Raul Boesel. Outro motivo de espanto para as pessoas é descobrir que, ao contrário dos DJs predominantemente jovens, quem está fazendo ferver a pista é um cinquentão.
"É uma dupla surpresa quando me vêem tocando", afirma Boesel. "Sempre vem alguém puxar papo e contar que o pai dele era o meu fã." Cara de espanto também fazem os colegas de corridas. Quando ouvem que hoje o ex-piloto ganha a vida discotecando em baladas, os olhos deles ficam arregalados.
A paixão pela música eletrônica surgiu quando ainda era piloto. Entre uma prova e outra, tinha tempo para viajar e curtir os grandes festivais internacionais, entre os quais Global Gathering, na Inglaterra; Dance Valley, na Holanda e festas em Ibiza, que Boesel considera a Disneylândia do estilo eletrônico. No ano passado, durante sete meses, Boesel contratou um professor particular e mergulhou nos estudos para se tornar um DJ.
"Os padrões sociais mudaram, existe um leque de opções muito maior. Quando era menino, o meu avô era formal e parecia bem mais velho", diz o DJ. "Hoje, ser diferente não choca tanto, só não dá fazer papel de ridículo. Ser avançado é bem diferente do que fingir o que não somos realmente."
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