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Luiz Horta
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Desliguem os celulares. Joly vai falar

Ele se define como parceiro da natureza. Briga se sugerem o uso de produtos químicos na produção de vinho. Para Nicolas Joly, vinicultura se faz com métodos ancestrais e esterco. Joly vem ao Brasil no fim do mês e falou ao 'Paladar'

24 de abril de 2008 | 4h 01
Luiz Horta - O Estado de S.Paulo

Não tem escapatória: para o mundo do vinho, Nicolas Joly é como coentro, amado ou odiado. O que se justifica, o homem é a polêmica engarrafada. Numa visita anterior ao Brasil foi divertido presenciar a perplexidade. Quando todos esperavam ouvi-lo falar sobre rolhas ou barricas de carvalho, ele tirou do bolso no início da degustação um medidor de ondas magnéticas para provar que a sala estava horrivelmente contaminada por todos os celulares e gadgets eletrônicos dos participantes, afetando os vinhos e nossa saúde ao mesmo tempo.

Este intenso e aristocrático francês, que largou uma promissora carreira nas finanças em Londres, com MBA em Colúmbia, para se dedicar ao histórico vinhedo da família em Savennières, sabe ser inesperado - e tem um senso agudo e perfeito de teatralidade. Ninguém sai de uma palestra que faça sem ficar algo pensativo: e se ele tiver razão?

Acusado por gente graúda no ambiente dos vinhos de não gostar da bebida, e também de que seus vinhos eram melhores antes que ''pirasse'', espanta que um homem tão afável e ligado à natureza tenha tantos inimigos. Ele tenta uma explicação, embora não se importe nem um pouco com o que pensam dele: ''Sei que muita gente não gosta de mim. Pois quando toco no assunto das energias livres no mundo e no poder dos vendedores de químicos, sei que mexo num vespeiro. O caso é aquilo que sempre repito, nunca uma galinha me pediu uma moeda por ter botado um ovo. Da mesma forma, o sol e a lua são de certa forma gratuitos, enquanto os fertilizantes, que não passam de sais que dão sede à terra, são caros.''

Sempre paciente e eloqüente na defesa do que pensa, Joly respondeu às perguntas do Paladar por e-mail, de seu imponente Coulée de Serrant, propriedade singular no Loire, com história de dez séculos e direito a uma AOC própria para suas uvas Chenin Blanc. Antes da degustação que conduz em São Paulo, ele passará dois dias com produtores do Rio Grande do Sul, onde pretende entusiasmar seus pares brasileiros para as práticas orgânicas.

Você é um vinicultor diferente. Seu cartão de visitas o descreve simplesmente como ''assistente da natureza''...

Eu detesto a palavra winemaker, não sou um fazedor de vinhos, sou um parceiro da natureza na produção de algo vivo e integrado ao meio ambiente. Você conhece algum criador de porcos que se auto-intitule ''pigmaker''? Um vinho que não seja feito assim está morto, perfumado com leveduras artificiais, fruto de clones. É possível dar o cheiro que se queira ao vinho, como ao iogurte de supermercado. Esses vinhos ganham degustações porque são óbvios e fáceis de entender. Mas abra uma garrafa de um biodinâmico e vá provando durante três dias e verá do que se trata o que fazemos.

Como a biodinâmica atua nas uvas?

Prestamos atenção na lua e no sol, não apenas no lado em que nascem, mas nas trocas de energia. Os produtos químicos atrapalham a recepção pelas folhas e raízes dessa energia vital. O terroir é captado por aí, raízes e folhas. Precisamos potencializar esses canais, as uvas são receptores, como antenas. Usando diferentes adubos para cada caso - os porcos são animais da terra, portanto seu esterco é bom para raízes; os cavalos são animais ligados ao calor e seu adubo funciona para momentos de frutificação, e assim por diante-, nossa agricultura é uma forma de recuperar o artístico da vinicultura. De retomar o conhecimento ancestral.

Há críticas sobre o fato de a biodinâmica admitir sulfato de cobre no terreno (a mistura de Bordeaux) e dióxido de enxofre na hora de engarrafar...

Cobre é um metal. Sua força arquetípica é Vênus. Diluições de cobre são usadas na cura de muitas doenças. Os metais têm papel como remédios. O uso mínimo e controlado de cobre num terreno sadio não causa problemas. Eu enfatizo a palavra MÍNIMO! Muito cobre é destrutivo, mas muito oxigênio também é. Se houver demasiado oxigênio no ar seus pulmões se queimarão. O que não quer dizer que vamos proibir o ar... Com o enxofre é a mesma coisa. Não usar enxofre significa que os vinhos não poderão viajar, é muito complicado bani-lo totalmente, o vinho saudável ignora esse enxofre, sua presença é irrelevante, não fica um traço no final. O inimigo verdadeiro é a indústria de produtos químicos, um falso progresso que cria um novo mercado com seus efeitos secundários e a necessidade de assistência posterior. Eles mesmos vendem a destruição e depois o remédio para essa catástrofe.

O que você vai pregar no Rio Grande do Sul?

Não vou fazer pregações. Nem angariar adeptos para a causa biodinâmica. Quero apenas que os estudantes de enologia e agronomia ampliem o estreito mundo de conhecimento em que são constrangidos na sua formação. Que pensem livremente e considerem forças cósmicas que nunca levam em conta com a cara enfiada em seus laboratórios. Se eles olharem em volta um pouco, virem o céu, as energias circundantes, situarem os vinhedos no contexto do universo, considero minha tarefa cumprida.

1ª Feira de Vinhos Biodinâmicos no Brasil

Quando: 29 de abril

Onde: Buffet Torres - Av. dos Imarés, 182, Moema

Horários: das 14 às 17 horas, para profissionais, e das 17 às 22 horas, para profissionais e consumidor final.

Ingressos: Antecipado, R$ 140. À venda na ABS, tel. (11) 3814-7853, e na Casa do Porto, tel. (11) 3061-3003. No dia do evento, R$ 200.

Estacionamento: R$ 13.

Informações: Stellium Design & Eventos,

tel. (27) 3216-7677 e pelo site

www.stellium.com.br/biodinamico/biodinamico.htm