Deu a louca na carochinha
Fernanda Torres foi buscar textos de Millôr Fernandes para transformá-los no seriado que estreia no Multishow
O processo é como o do teatro, mas não espalhe. "É que se você diz hoje em dia, afasta público. Dizer que parece com teatro é um convite para a pessoa mudar de canal. Acho que não existe mais você dizer que parece teatro no bom sentido", brinca Fernanda Torres, nos bastidores de gravação do seriado Amoral da História, que estreia nesta segunda (8), às 23h30 no Multishow, em coprodução com a Conspiração Filmes.
A comparação com o teatro tem a ver com o tipo de produção, quase artesanal, que exigiu que a atriz se desdobrasse em todo tipo de função para adaptar para a TV os livros Fábulas Fabulosas e Millôr Definitivo - A Bíblia do Caos, numa série que terá 20 episódios de 15 minutos cada. Foi ela mesma que teve a ideia de resgatar os textos do autor, coisa que ela foi buscar lá na infância para adaptar com a ajuda do diretor Vicente Kubrusly e do roteirista Renato Fagundes. "O Fábulas Fabulosas é uma joia que eu conhecia desde criança", detalha a atriz. "Fui criada com ele, era o mais incrível amigo dos meus pais (Fernanda Montenegro e Fernando Torres) – ele desenhava, traduzia Shakespeare e ainda inventou o frescobol. Ele faz tão parte da minha criação que eu fico chocada quando percebo que hoje em dia as pessoas não conhecem o Millôr. Acho que ele virou uma coisa para eruditos, e ele não é."
A ideia da série surgiu de uma encomenda do Multishow, que queria um programa com Fernanda, no mês em que comemora 19 anos no ar. "Como o Multishow é um canal jovem, achei que seria perfeito, porque as histórias são meio conto-de-fadas, contadas com a moral torta e a inteligência do Millôr", anota a atriz.
Nos contos, Fernanda se reveza em diversas personagens e, ainda, na coelha sexy que narra as histórias. "Pensamos em como fazer essa carochinha. Alguém falou em coelha, e eu pensei que coelha lembra a Playboy, que tem tudo a ver com o Millôr. Foi assim que virei uma coelha, que ainda lembra um pouco Alice no País das Maravilhas", detalha a atriz, que será de japonesa a dondoca, de rato a madrasta da Branca de Neve. "Vou ter de fazer um portfólio dos meus novos personagens", brincou ela durante as filmagens de um dos episódios, acompanhadas pelo Estado no mês passado.

Showman. O seriado tem os mais variados convidados, entre eles os cantores Wando e Dudu Nobre, além do ator Paulo Silvino. E para assumir os papeis masculinos – de alcoólatra a Deus –, Fernanda diz que não poderia pensar em outro nome senão no de Miele.
"Como mulher, eu achava que a gente precisava de um homem desse peso, que fosse contemporâneo ao Millôr e tivesse a ver com o universo dele", explica. "Vi que a gente ia precisar de alguém para fazer papel de Freud, de Ulisses, de milionário. Pensei: pronto, Miele! Lembrei que ele tinha gravado um disco com os meus pais com trechos de coisas do Millôr. Era extraordinário, ele ficava entre o locutor de rádio e o ator brechtniano. Ele é um homem do tempo em que se bebia no Antonio’s, em que tinha homem, mulher e as coisas eram mais definidas."
Se o texto parecia pronto para ser filmado quando a equipe se debruçou sobre a adaptação, a produção dos episódios parecia bastante complicada. Ainda com um espírito de companhia teatral, a equipe saiu com uma ideia bastante original para driblar a dificuldade de produzir histórias tão diferentes uma da outra numa mesma minissérie. "É que uma história se passa na Grécia, em outra eu sou uma rica caridosa, e, em outra, faço uma japonesa no Japão. Num outro episódio, o Miele aparece de leão, eu de rato e o Paulo Silvino, de burro", conta Fernanda. "Seria muito caro fazer tudo isso em locação e, ainda, complicado dar uma cara só para tudo isso, uma marca para o seriado."
Luz e sombra. A solução foi montar o set num galpão e usar projeções para compor os cenários. "Não se assuste, aqui parece mesmo a batcaverna", diverte-se Fernanda, tranquilizando a visitante ao garantir que o escuro é normal. Conferido no monitor, o resultado das projeções é surpreendente, e dá um charme especial à produção.
Aos 86 anos, Millôr, que já foi até apresentador de programa, mas nunca teve ficção adaptada para a TV, deu carta branca para Fernanda e não fez questão de ver nada do roteiro do seriado. "De vez em quando, eu mando uma foto das gravações para ele", relata ela. "Ontem, eu gravei um episódio em que eu era uma japonesa, que acabava num terremoto, enquanto eu cantava Madame Butterfly. É cada coisa, que eu nem acredito que estou filmando."
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